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A rastreabilidade como ferramenta da segurança alimentar

01/12/2005

Luís Pereira

Porquê Segurança Alimentar?

Os escândalos associados à falta de segurança alimentar nos finais dos anos noventa e outros mais recentes (como sejam os casos da BSE ou da febre aftosa) afectaram profundamente o modo como os consumidores analisam e seleccionam os produtos alimentares oferecidos pelo mercado. O aumento da sensibilidade para os perigos envolvidos na alimentação bem como a melhoria dos padrões de vida nas sociedades desenvolvidas, induziram a primazia da selecção por padrões de custo e de qualidade em detrimento da escolha unicamente pelo melhor preço.

Uma reacção política e privada.

Esta mudança de atitude por parte dos consumidores desencadeou uma série de respostas políticas com vista à implementação de sistemas de segurança e das respectivas entidades reguladoras para prevenir novos perigos e novos escândalos. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar e a Agência Portuguesa de Segurança Alimentar são disso exemplo vivo. Foram constituídas em 2002 e 2004, respectivamente, com vista à avaliação científica e comunicação dos riscos em toda a cadeia alimentar.

A criação de regulamentação para os processos de produção e armazenamento, e o interesse crescente dos consumidores em adquirir produtos seguros obriga os intervenientes directos das cadeias de abastecimento (produtores, transportadores e comerciantes) a garantir por si a segurança dos seus produtos. Os produtores, grossistas e retalhistas passaram a ter de realizar investimento contínuos com vista à inovação e de dispor de pessoal capacitado para trabalhar com novas ferramentas.

Os novos sistemas de controlo de qualidade.

Actualmente, há uma grande diversidade de programas e regulamentações a cumprir que geram esta nova necessidade dos agentes das cadeias de produção e de abastecimento com diferentes dimensões:

•  alguns sistemas são exclusivos de uma cadeia, (como seja o adoptado pelo Clube de Produtores da Sonae);

•  outros têm projecção nacional (como acontece no Reino Unido com o Assured Food Standards) ;

•  outros ainda, assumem importância europeia (é o caso do EUREPGAP, utilizado por grandes cooperativas como a Anecoop).

Mas, poucos estarão adaptados para uma utilização em larga escala. No que diz respeito a sistemas de controlo, apenas o HACCP ( Hazard Analysis and Critical Control Points criado pelo U.S. Department of Agriculture) terá aceitação mundial. Para implementação de rastreabilidade e comunicação entre agentes foi o sistema EAN.UCC, da responsabilidade do GS1, o que encontrou maior eco e acabou por ser adoptado como solução universal.

Tendo em conta a diversidade de sistemas de controlo de qualidade, a International Organization for Standardization (ISO) criou, em Setembro de 2005, um novo padrão internacional: a ISO 22000 que procura combinar princípios e elementos chave da segurança alimentar já reconhecidos (como sejam o HACCP para o controlo de pontos críticos ou a ISO 9001 para a gestão do sistema). Apesar de criar um padrão definitivo para áreas da segurança alimentar (como a comunicação entre agentes, a gestão do sistema ou o controlo de perigos), esta nova norma permite considerar outros referenciais exigidos pelos intervenientes da cadeia de abastecimento. O ISO 22000 funciona como sistema nuclear integrando os restantes sistemas como requisitos específicos dos utilizadores.

O ISO 22000 foi um passo importante na padronização dos processos de garantia e certificação de qualidade. Mas, ainda há muito deixado ao critério de cada agente ou cadeia de abastecimento. E, consoante as exigências e necessidades dos consumidores, os diferentes processos poderão ser mais ou menos complexos.

Quanto mais exigente for um sistema (quer para implementação de normas de segurança como de rastreabilidade) maior a satisfação e confiança gerada nos consumidores e mais volumosa será a informação a registar e transferir entre os agentes da cadeia. Assim, a adopção de um programa de segurança alimentar mais adequado para cada tipo de produto terá, então, que estar associada à escolha da tecnologia mais eficaz para pôr o processo em prática.

Desafios à implementação de sistemas de controlo de qualidade.

Neste contexto, diversas empresas nacionais têm-se dedicado ao desenvolvimento de sistemas de informação capazes de automatizar processos e de compilar informação ao longo da cadeia de abastecimento. No entanto, todas se têm deparado com a dificuldade de gerar soluções que:

•  Cumpram todas as normas e programas de segurança;

•  Correspondam ao número de parâmetros exigidos e ao modo de os processar (que variam de uma cadeia para a outra);

•  E, satisfaçam as necessidades específicas de implementação do HACCP e dos sistemas de codificação (nomeadamente o sistema de codificação por barras) padronizados pelo EAN.UCC.

A adopção de sistemas de controlo de qualidade e rastreabilidade/transmissão de informação HACCP e EAN.UCC ainda requer, dada a grande adaptabilidade destes sistemas às necessidades/exigências dos consumidores, um sistema de informação com grande abertura e flexibilidade nos parâmetros considerados. Abertura, flexibilidade e facilidade e eficiência no registo e consulta de informação deverão ser por isso os requisitos essenciais de um sistema de informação adaptado às especificidades de cada cadeia de distribuição de produtos agro-alimentares.

Mas, tendo conseguido um conhecimento completo da realidade da empresa, o agente deve implementar formas de registo de informação eficazes sem prejuízo do seu normal funcionamento. A informática será o único caminho a seguir para, a baixos custos, estruturar, classificar, consultar e processar esta informação crítica que também pode ser utilizada com objectivos de gestão.

ENOGESTÃO: uma alfaia de sucesso!

A título de exemplo refira-se o processo produtivo das adegas que começa na recepção de uvas (ou mesmo na instalação da vinha) e está longe de ser linear, sendo saliente a sua necessidade de organização da informação:

•  Enólogos, vitivinicultores e adegueiros precisam de registar, consultar e controlar toda a complexa actividade quotidiana duma adega (análises, trasfegas, enchimentos, loteamentos, tratamentos enológicos, ou até confirmar instantaneamente stocks);

•  Paralelamente, os gestores destas empresas querem conhecer a situação económica global bem como a de cada unidade de negócio sendo essencial a determinação de indicadores (como o volume de vendas por produto ou cliente ou a margem líquida de cada vinho).

Existem actualmente ferramentas integrada de gestão de adegas como o ENOGESTÃO ( www.agrogestao.com ) que permitem responder com facilidade a estas exigências requerendo pequenos investimentos em equipamento (vulgar computador pessoal) e formação (4 a 10 dias). Esta solução permite a rastreabilidade completa de cada vinho desde a garrafa até ao talhão da vinha que lhe deu origem de forma fácil, ou determinar, por exemplo, o custo exacto de cada garrafa produzida.

Empresas como a Quinta do Vale Meão, Fundação Eugénio de Almeida, Herdade da Malhadinha Nova, Casa de Santa Vitória e a Sociedade Agrícola Lagoalva de Cima, podem consultar no seu PC de imediato, todo o percurso produtivo dos vinhos que colocam no mercado, garantindo assim um dos principais requisitos da segurança alimentar.

Mas, o exemplo dos vinhos repete-se em outros sectores representativos da Agro-Indústria nacional: do Azeite, dos Queijos, das Horto-frutícolas, das Carnes e Enchidos entre outros. Em todos os casos, a mera observação de factos gera dados mas para conseguir extrair informação é necessário interpretação e processamento. Paradigma de conhecimento a que aplicações como o ENOGESTÃO, OLIGESTÃO, LACTOGESTÃO, FRUTIGESTÃO, CARNEGESTÃO dão resposta.

Referências:

Agência Portuguesa de Segurança Alimentar, http://www.agenciaalimentar.pt .

Assured Food Standards, www.redtractor.org.uk

US Food and drug administration, www.cfsan.fda.gov

EAN.UCC system, http://www.ean-ucc.org

GS1, http://www.gs1.org

Agroportal, Clube de Produtores da Sonae, http://www.agroportal.pt/a/2001/cpsonae.htm

Clube de Produtores da Sonae, http://www.clubeprodutores.sonae.pt

European Food Safety Authority, http://www.efsa.eu.int/

Almeida, Rui (2005); Implementação da norma ISO 22000:2005 , Revista da Qualidade, pag.29, Setembro/Outubro 2005

Piqueras, J.M.; Iranzo, B.O.; Amat, M.V. (2002) - Seguridad alimentaria en Anecoop: trazabilidad y Naturane . Distribución e Consumo, Marzo-Abril, pag 28-30. Disponível em http://www.mercasa.es\es\publicaciones\dyc\sum62\pdf\anecoop.pdf

Fearne, A.; Hughes, D. (1999) - Success factors in the fresh produce supply chain: insights from the UK . Supply Chain Management, Volume 4, Número 3, Pag. 120-131

Pereira, Ana Paula (2005); ISO9001 e ISO22000, Um Sistema Integrado Para Atingir A Excelência Na Indústria Alimentar , Revista da Qualidade, pag.31, Setembro/Outubro 2005

Pinheiro, Gabriela; Sá, Joana Guimarães (2005); A importância da ISA 22000 para a qualidade e segurança alimentar , Revista da Qualidade, pag.29, Setembro/Outubro 2005.

 

 

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