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Quanto vale o seu milho?

01/11/2006

Sistema de custeio é um conjunto de procedimentos que determina a forma como é efectuado o apuramento dos preços unitários dos centros de custo ou preços de transferência. É importante conhece-los já que, devido à diversidade da natureza dos custos existentes no âmbito do processo produtivo (fixos e variáveis, específicos e não específicos, ...) consoante se utiliza, uma ou outra forma de imputação de custos fixos, assim se obtém um custo de produção diferente.

Frederico Avillez / José Pedro Salema

A resposta ao título deste artigo não será única pois dependerá sempre do sistema de custeio utilizado para o apurar.

Existem vários sistemas de custeio que são baseados nos custos reais e incluem o custeio total, o custeio variável, o custeio racional o custeio por chaves de imputação teórica.

Como o próprio nome indica, os sistemas de custeio total são aqueles que incorporam a totalidade dos custos (fixos e variáveis) para apuramento dos preços de transferência.

Estes são calculados dividindo a totalidade dos custos pelas unidades de imputação.

Os sistemas de custeio variável apenas fazem reflectir nos centros de resultados (actividades ou produtos) os custos variáveis. O preço de transferência é calculado dividindo os custos variáveis pelas unidades de imputação. Neste caso os custos fixos não são reflectidos, e a maior parte dos casos em que este custeio é utilizado o sistema contabilístico nem sequer regista os custos fixos.

O sistema de custeio designado por racional, faz recurso a um conceito de quota teórica, utilização normal ou capacidade de determinado centro de custo. Essa utilização normal é medida nas unidades de imputação: horas normais de trabalho ano, capacidade de produção de uma determinada unidade produtiva, etc. Enquanto os custos variáveis são imputados na sua totalidade, os custo fixos são imputados de acordo com a referida quota teórica e não com a sua utilização real. Como é evidente, é natural que o valor dos custos fixos imputados aos centros de resultados não corresponda ao total de custos fixos. Esta diferença é directamente proporcional à sub utilização dos recursos estruturais da exploração. Este sistema de custeio é muito interessante pois permite uma correcta análise de cada centro de resultados sem sobrevalorizar os custos de estruturas sub aproveitadas e paralelamente permite controlar o custo desse sub aproveitamento.

É possível ainda, utilizar formas de imputação de custeio real com base em chaves de imputação teóricas. Usualmente estas chaves de imputação são o resultado da sensibilidade do gestor, não se baseando em dados reais observados, pelo que a sua validade é muito discutível.

É ainda possível determinar os preços de transferência sem considerar os custos reais utilizando sistema de custeio teórico como o custeio standard, o preço de mercado ou o preço negociado. Os sistemas de custeio standard são aqueles que calculam os preços de transferência utilizando valores padronizados não específicos da empresa. Ou são utilizados valores de cálculos feitos por estudos sobre o assunto ou são estimados com base em cálculos teóricos de funções de produção. Têm a fragilidade de poderem ser completamente desviados da realidade da empresa.

A utilização do preço de mercado é o sistema de custeio mais indicado para sistemas de contabilidade que privilegiem o cálculo de resultados de actividades. A utilização deste tipo de sistema permite individualizar cada uma das unidades de negócio, não permitindo que sejam transferidos de uma para outra as ineficiências ou eficiências extraordinárias. No fundo é como se o gestor estivesse a admitir que poderia escoar para o exterior a totalidade da sua produção intermédia e/ou a adquirir no mercado todas as matérias que utiliza nas suas actividades.

Algumas empresas com diferentes responsáveis dentro da sua hierarquia poderão preferir utilizar um preço negociado, para valorizar as transferências entre diferentes centros de responsabilidade. Estes casos são muitas vezes melhores do que os valores de mercado, pois incorporam na sua racionalidade não só o valor de mercado, como outros factores relacionados com qualidade, prazos de entrega, facilidades de pagamento, etc.

 

Opinião

O preço certo Imaginemos o caso dum agricultor que produz leite e quer determinar com exactidão o seu custo unitário de produção. Imaginemos ainda que o seu rebanho estabulado de Frísias tem como base da alimentação a silagem de milho produzida pelo próprio agricultor. Um importante factor de produção e que terá um peso significativo no custo de produção do leite de vaca será seguramente aquele alimento grosseiro. Que preço deve o leite pagar pela silagem de milho?

Se utilizar o custeio total vai reflectir todos os custos reais de produção do milho, mas pode ser que a sua estrutura (parque de máquinas) estejam a ser mal aproveitadas e o preço do milho será muito alto.

Se utilizar o custeio variável não terá que se preocupar com o peso da estrutura e todos os custos fixos mas o milho poderá ser barato demais.

Em caso de adoptar o custeio racional terá que atribuir a cada máquina e equipamento uma taxa teórica de utilização e assim evitar o problema do mau dimensionamento da estrutura. Pode acontecer que a empresa (pelos solos, técnicas ou outros) seja muito mais (ou menos) eficiente que o normal a produzir milho e o preço de custo do leite vai reflectir este facto. Isto é podemos chegar a um custo muito alto (ou baixo) do leite que apenas se deve à má (ou boa) eficiência como produtor de milho.

Para chegar a uma chave de repartição teórica o agricultor terá que confiar apenas na sua intuição e no conhecimento prévio da sua exploração e assim chegará a um valor que pode estar muito afastado da realidade.

Se utilizar o custeio standard terá alguma dificuldade em identificar qual standard utilizar- Os preços da campanha anterior, da média regional ou nacional?

É pouco usual os agricultores nacionais terem vários responsáveis de departamento entre os quais se pudesse apurar um preço negociado, logo não fará sentido utilizar esta forma de custeio.

Sempre que, como é o caso, exista transferência dum produto transaccionável no mercado e do qual é fácil averiguar o respectivo preço, é este valor que deve ser considerado. Desta forma “isolamos” cada uma das actividades produtivas e não transmitimos eficiências (ou ineficiências) dumas às outras.

O preço certo de transferência é, na nossa opinião, (quase) sempre o preço de mercado!

 

 

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