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Custos Escondidos, e tantas vezes esquecidos...

01/05/2006

Nem todos os custos se reflectem directamente nas nossas bolsas. Este mês debruçamo-nos sobre os custos escondidos que tantas vezes são esquecidos pelos agricultores.

Frederico Avillez

Quase todos os compêndios de gestão agrícola apresentam logo de início o conceito de Factores de Produção, que não são mais do que o conjunto dos recursos utilizados no processo produtivo. Só as explorações que são capazes de remunerar devidamente todos os factores de produção é que estão a criar valor acrescentado - a criar riqueza.

Uma vez que a remuneração de cada factor é feita de forma diferente, e exactamente para facilitar a identificação dessas remunerações, é habitual classificar os factores de produção em três grupos distintos: Trabalho, Capital e Empresário. Uma das remunerações mais evidentes do factor trabalho são os salários pagos aos trabalhadores, mas nem todas as remunerações são tão evidentes, como é o caso da generalidade das remunerações dos factores capital e empresário.

Para além dos salários, é fácil lembrarmo-nos de outros custos relacionados com a utilização da mão-de-obra: os encargos sociais, os seguros de acidentes de trabalho, as regalias em espécie ou os prémios de produtividade. Mas para além destes custos que normalmente são designados como reais, podem existir outros custos escondidos .

Quando na exploração agrícola se utilizam trabalhadores não remunerados, normalmente com laços familiares, devemos ter em atenção que esse membro do agregado poderia em alternativa trabalhar noutra empresa, auferindo um rendimento real. Neste tipo de situação os economistas dizem que estamos perante um custo de oportunidade, ou seja, ao utilizar aquele recurso a família está a prescindir de uma remuneração. Essa remuneração perdida deve ser um considerado como um custo da exploração - um custo escondido de remuneração daquele tipo de trabalhadores.

Na exploração agrícola o factor Capital apresenta-se numa variedade considerável de formas. Um dos factores mais importantes é o Capital Fundiário: terra e benfeitorias (melhoramentos fundiários, plantações e construções). As explorações que arrendam a terceiros a terra que exploram, pagam uma renda, e esse custo é exactamente a remuneração desse factor. Mas e o caso da terra própria, será necessário remunerar esse factor? Mais uma vez estamos perante uma situação de um custo de oportunidade: se a empresa não explorasse a terra, poderia arrendá-la a terceiros recebendo uma renda. Esse valor deve ser atribuído como um custo uma vez que corresponde à remuneração desse bem de capital.

Outra forma, para além da renda, para calcular o custo de oportunidade da terra, é simular uma aplicação financeira onde se aplicaria o resultado da hipotética venda da terra. O rendimento obtido anualmente nessa aplicação financeira é também um custo de oportunidade, que pode ser atribuído pela utilização da terra própria.

Uma vez que a rentabilidade das aplicações financeiras está estreitamente relacionada com o risco a esta associada, devemos escolher aplicações financeiras com um risco similar ao da utilização da terra. Uma vez que a terra é um dos bens com valor menos variável, as aplicações financeiras a utilizar deverão ser igualmente seguras, como é o caso das obrigações do estado.

Esta forma de estimativa de custos escondidos pode-se aplicar a muitos outros tipos de bens de capital, como as benfeitorias ou os equipamentos. Nestes casos, uma vez que o valor destes bens de capital se vai depreciando ao longo da sua utilização, devemos ter isso em consideração no cálculo do custo de oportunidade (ou reduzindo o valor da aplicação financeira ano a ano, ou usando desde logo um valor médio). Ainda, tendo em atenção que a empresa procura rendimentos sustentados ao longo do tempo, devemos também considerar outro tipo de custo escondido: as amortizações . A amortização é no fundo a forma da empresa garantir que chegado o fim da vida útil de um determinado bem de capital é possível substitui-lo, não comprometendo a sua própria estrutura produtiva.

As remunerações do capital e do trabalho são reconhecidos como custos da exploração, mas a remuneração do factor empresário é em geral entendida como um valor residual, depois de calculadas as remunerações dos outros dois factores de produção. Esse valor residual, conhecido por Lucro, é devido às funções especificas e indispensáveis que o empresário assume: o risco, a iniciativa e a reunião e organização dos recursos.

Opinião

A grande maioria das empresas agrícolas que conheço, e com quem tenho vindo a colaborar na implementação de sistemas de informatizados de controlo de gestão, não tem reconhecido a relevância da maioria dos custos atribuídos, com excepção das amortizações. Uma vez que este tipo de custos são fixos, as decisões de curto prazo não são prejudicadas, mas o mesmo não podemos dizer das de longo prazo.

É também por isso que encontramos a grande maioria das explorações agrícolas numa situação de desadequação dos sistemas produtivos que praticam face às oportunidades reais que se lhe apresentam. Muitas explorações estão dependentes de rendimentos fictícios e insustentáveis para suportarem os sistemas de produção que praticam.

Não sou daqueles que pensa que a função do Ministro da Agricultura é defender os interesses dos agricultores portugueses, mas antes defender, juntamente com todos os outros membros do governo, os interesses da generalidade dos portugueses, de preferência sempre com visão estratégica - considerando sempre os interesses das gerações vindouras.

Acho também perfeitamente legitimo que o actual Ministro da Agricultura queira rever algumas das medidas de política, que estão englobadas no pacote das chamadas medidas agro-ambientais, até porque penso que algumas das medidas de política actuais não são mais do que muletas para sustentar o rendimento dos agricultores e não verdadeiras remunerações por funções exercidas pelos agricultores no âmbito das "externalidades ambientais".

A forma como escolheu fazê-lo é que não me parece defensável. Não é legitimo que assuma posições que atentam contra o bom nome do estado português, fazendo-o passar por desonesto. Nem muito menos que utilize, para mobilizar a opinião pública, hábeis mas desadequadas técnicas de calúnia e injúria sobre a generalidade dos agricultores.

 

 

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