| PT | 
Ir para:    página inicial    |    conteúdo página    |    pesquisa 

Os Custos na Decisão

01/03/2006

Este mês a equipa da FZ AGROGESTÃO vem trazer-nos uma reflexão em torno de algumas classificações dos custos da empresa agrícola e de como o tipo de decisão a tomar pelo agricultor influencia quais as rubricas a considerar.

Frederico Avillez e José Pedro Salema

Em economia, assim como numa exploração agrícola, os recursos são escassos. Por esta razão sempre que um recurso é gasto dizemos que existe um custo. Assim a noção de custo deverá ser entendida sempre como o sacrifício parcial ou total de um recurso.

A contabilidade "oficial" por se basear nos documentos das relações da empresa com o exterior - as compras e as vendas - tem que inferir alguns dos custos de uma empresa pela diferença entre aquelas quantidades de recursos e as quantidades presentes no início e fim do período em análise. É este o motivo para a "obrigatoriedade" dos inventários de fim de ano.

Um sistema de gestão mais avançado e que exija o registo de todos os consumos e aplicações de recursos pode determinar com muito mais rigor e simplicidade todos os custos e imputa-los a diferentes centros de análise.

Muitas das ferramentas da gestão baseiam-se no conhecimento detalhado dos custos e no seu peso relativo ou estrutura. A resolução de diferentes problemas baseia-se em diferentes classificações. Podemos ter classificações dos custos segundo a operação cultural em que os recursos estão envolvidos, classificações de acordo com a estrutura do aparelho de produção, classificações de acordo com a especificidade dos custos, e muitas outras. Até os proveitos devem ser analisados segundo diferentes prismas, o que na agricultura, tradicionalmente, raramente se encontra.

Uma das classificações mais familiares entre os agricultores, ou mesmo entre os gestores em geral, é a classificação que distingue os custos fixos dos variáveis.

Aos custos que dependem do nível de produção chamamos variáveis , ao contrário daqueles são completamente independentes das quantidades produzidas, que são classificados como fixos . Por exemplo, um agricultor pode alterar a quantidade de produto que obtêm fazendo variar a quantidade de adubo que aplica, mas não têm qualquer efeito directo na produção por contratar um novo trabalhador permanente.

Apesar da familiaridade com esta classificação, é muitas vezes desconhecida a utilidade desse conceito. Na base de cada decisão está a análise de determinada informação. A vantagem da classificação dos custos entre fixos e variáveis, está exactamente no facto de que em alguns tipos de decisão é fundamental considerar apenas os custos variáveis, enquanto noutras também se devem ter em conta os fixos.

Em qualquer decisão que implique alterações do aparelho estrutural da exploração agrícola, como a aquisição de um equipamento, ou a contratação de um trabalhador permanente, é fundamental analisar a totalidade dos custos (variáveis e fixos), comparando-os com os proveitos. Nas decisões de curto prazo, pelo contrário, não se podem considerar os custos fixos, correndo o risco de se tomar a decisão errada se assim não se fizer.

Se os proveitos de uma determinada empresa, exploração, ou actividade, não cobrem os custos totais, mas pelo menos são suficientes para suprir todos os custos variáveis, então essa unidade não sendo rentável deve-se manter em funcionamento, pois ao permitir que parte, mesmo que pequena, dos custos fixos seja remunerada, minimizam-se os prejuízos.

Quando enunciamos os custos totais em termos unitários, estamos a definir um "limiar de rentabilidade", se o fizermos aos custos variáveis, então definimos o conceito de "limiar de encerramento". Estes dois conceitos não são mais do que quais valores de alerta para serem comparados directamente com os proveitos unitários.

Complementar à classificação dos custos fixos e variáveis, é a dos custos afundados. Os custos afundados são, como o nome indica, aqueles que ocorreram no passado e que o gestor num determinado momento não deverá considerar. Para abandonar a analogia náutica e tendo em conta o meio rural podemos sugerir a alteração para custos enterrados . Em todas as decisões de influência futura os custos afundados não devem ser considerados.

Colher ou não colher

Qualquer agricultor que trabalha com culturas de resultado inseguro está habituado a ter que tomar decisões difíceis como no momento em que ele está face a uma colheita num ano particularmente mau, precisa de escolher se é ou não interessante colher o produto.

Antes de mais ele precisa de fazer uma estimativa dos proveitos que espera obter com a pouca (ou deficiente) produção que enfrenta. Mas com que custos é que vamos comparar esta estimativa?

Para seguir a racionalidade económica (e até psico-sociológica) nunca devemos ter em conta os custos afundados para tomar decisões de carácter futuro - apenas devem ser considerados os custos e proveitos futuros. Assim é intuitivo que os custos que ocorreram até aí não são relevantes para esta decisão. Se o gestor decidir que não deve fazer a colheita pois a sua estimativa de proveitos não consegue cobrir os custos afundados, está a perder uma oportunidade para minimizar as perdas.

Tendo arrumados os custos que ficaram para trás das costas do agricultor no momento da decisão, sobram os custos que estão à sua frente. É necessário portanto, fazer uma estimativa de quais os custos implicados na operação de colheita, transporte, etc. Se os proveitos não forem superiores à totalidade dos custos (se não for ultrapassado o limiar de rentabilidade) não quer dizer que não haja ainda uma oportunidade de minimizar perdas (superando o limiar de encerramento), desde que a estimativa dos custos variáveis seja inferior à dos proveitos.

 

 

Voltar