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Mandar o RPU às couves!? - Custo de oportunidades/utilidade

03/03/2008

A Agrogestão inicia neste número um curso de gestão agrícola que se desenrolará ao longo dos números da Vida Rural de 2008. Este curso tem origem na adaptação de material pedagógico produzido pela ADISA, pelo IDRHa, pela Agroges e pela FZ Agrogestão, com os objectivos de permitir um salto qualitativo na gestão de empresas agrícolas e de criar um linguagem comum a todos os protagonistas da produção agrícola (técnicos e produtores). 

Cada número abordará um tópico inerente à gestão de empresas agrícolas de uma forma simples e prática. Os artigos retratam, na primeira pessoa, uma viagem do José Manuel, um agrónomo que decide visitar agricultores seus amigos em várias regiões do país a quem vai prestando auxílio nos problemas de gestão que os apoquentam nesse momento.

Neste número José Manuel encontra um tio de Chaves indeciso sobre arrendar as terras ou manter o RPU e assim a conversa segue rumo para os conceitos de utilidade, de custo de oportunidade e de prémio de risco.

 

Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avvilez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

 

 

 - O  João Miguel veio falar comigo dizendo que precisava de mais terras para fazer couves – começou o meu tio - Começou a actividade há 5 anos e vende tudo para o Porto – as pencas de Chaves faziam um sucesso no Bulhão. A conversa foi correndo e ele propôs-me arrendar as nossas terras.

- E então tio, qual é a sua dúvida?

- Bem, o problema é que recebo um RPU bem bonzinho e ainda tiro algum rendimento das pastagens.

- Então mas o João Miguel não quer esses direitos de RPU, ou a renda é muito baixa?

- Os direitos não os quer, pois ele também os tem de outra terra que tinha arrendada. Quanto à renda, diz que me paga 20% dos resultados, tenho confiança nele, mas o negócio pode dar para o torto...

Quando chegou a hora de almoço e tendo ficado de olho na ementa de um restaurante ali por perto desafiei o meu tio a almoçar por lá enquanto conversávamos:

- Face ao que contei, preciso da tua ajuda. Na tua perspectiva devo continuar com as pastagens e a receber o RPU, que é dinheirinho certo, ou abdico do RPU e arrendo as terras da Quinta dos Freixos? Neste caso, e para o meu gadito as outras terras chegam bem.

Achei que devia começar por explicar ao meu tio o valor do dinheiro...

- Se hoje ao almoço, este mesmo almoço que me está a oferecer – disse eu de sorriso largo aproveitando a boa disposição do meu tio

- gastar 20 Euros, qual é o verdadeiro custo do almoço?

Continuei o raciocínio, dizendo que, ao pagar os 20 Euros pelo almoço, o meu tio deixaria de comprar um volume de cigarros ou de ir com a minha tia de táxi à feira, ou de… não interessa o quê, mas que deixaria de gastar o dinheiro noutra coisa que lhe daria satisfação ou que “produzisse utilidade”. Foi um passo arriscado para quem queria um almoço oferecido pelo tio, ainda que não fosse um “almoço totalmente grátis”!

Disse-lhe ainda:

- A utilidade conseguida com a melhor das alternativas que teve de ser sacrificada para ser possível este almoço, é o custo do almoço e, a isto, chama-se custo de oportunidade! Pode existir um custo de oportunidade em quase tudo o que fazemos: Produzir ou não produzir, trabalhar na agricultura ou fora dela, investir ou aforrar, almoçar fora ou ir de táxi à feira… Todos os almoços, têm um custo de oportunidade e é por isso que os economistas insistem em dizer que não há almoços grátis, entende? – perguntei esperançado.

- Entendi-te! – respondeu-me – Só não percebi o que é que este almoço, os cigarros e a feira têm que ver com o que te perguntei!

- Calma. Eu explico. – apaziguei - O facto de receber um determinado valor de RPU todos os anos pode ter um custo de oportunidade associado, que resulta de, por questões de normativos legais, não poder arrendar a sua terra e de a manter em boas condições agronómicas . Para determinar a existência desse custo e o seu valor, precisa somente de fazer meia dúzia de contas! No entanto, antes de começar, tem de ter presente um princípio básico.

E continuei a explicar-lhe:

- É que um euro garantido vale mais que um euro com risco! Quero com isto dizer que, só abdicará do seu RPU e das pastagens (do seu “euro certo”) caso a renda do João Miguel lhe venha a proporcionar um rendimento superior ao que recebe actualmente e que permita compensar o risco associado à nova actividade agrícola, é que nem sempre as couves correm bem. Entende agora?

- Agora sim! – respondeu, desta vez com aparente sinceridade.

- Então vamos a contas! Puxe pela memória e diga-me o valor do RPU - disse-lhe enquanto afastava os copos para poder escrever na toalha de papel da mesa onde almoçávamos…

- Bom, da Quinta dos Freixos, tenho 23 direitos de RPU correspondentes a 23 hectares que valem, cada um, 112 Euros por ano. Quanto às couves tenho aqui comigo os resultados que o João Miguel me deu do que tem feito neste últimos anos. Pelas contas dele teve uma receita da vendas das couves de 5040 Euros por hectare.

- Mãos à obra! Temos quase tudo o que precisamos. A primeira coisa a fazer é calcular o seu actual rendimento, valor proveniente do RPU, das receitas das pastagens, dos seus custos e ainda os custos associados à manutenção das boas práticas agronómicas: ora bem, 23 hectares multiplicados por 112 Euros (valor unitário de cada um dos direitos) origina um proveito de 2576 Euros por ano! Por outro lado, só os receberá se cumprir as boas práticas agronómicas o que implica, no mínimo uma limpeza por ano. A limpeza terá um custo associado de 18,46 Euros por hectare, correspondente a mão-de-obra (5,67 Euros), gasóleo (2,79 Euros), seguros (0,08 Euros), amortizações (5,21 Euros) e reparações (4,71 Euros). Então, 18,46 Euros multiplicados por 23 resulta num custo de 849,16 Euros o que lhe permite obter, líquidos, 2151,42 Euros por ano (RPU–custos de boas práticas agronómicas). E nas pastagens?

- Nas pastagens não é difícil, pois a técnica da associação já me fez as contas : as receitas são de 95 euros por hectare e gasto com a adubação azotada (que distribuo duas vezes por ano) 27 euros de cada vez. Tudo isto, nos 23 hectares, dará 943 euros (receitas de 23 x 95€/ha menos os custos de 23ha x 2 x 27 €/ha).

Continuei:

- A segunda fase corresponde ao cálculo dos resultados gerados pela actividade hortícola. Vamos assumir que segundo o João Miguel lhe indicou, gasta por hectare 1549,83 Euros em consumíveis (gasóleo, produtos fitossanitários, electricidade, adubos, etc.), 1183,4 Euros com mão-de-obra (sementeira, transportes, mobilizações do solo, colheita, tratamentos fitossanitários, etc.), 117,20 Euros em amortizações de máquinas (tractores, grades, reboques, pulverizador, etc.)e 169,86 Euros em reparações. Obtém ainda com a venda das couves 5040 Euros por hectare. Todos os custos apresentados pelo João Miguel são custos específicos da actividade. Desta forma, o resultado mais interessante de calcular e que nos permitirá, de facto, realizar a comparação entre as duas hipóteses em questão, é a Margem de Contribuição da actividade. A margem de contribuição não é mais do que o resíduo do Proveito que sobeja após remunerar todos os custos específicos envolvidos na actividade.

Assim, fazendo as operações necessárias, obteremos o valor da margem de contribuição do pimento, que poderemos comparar com o proveito gerado pelos RPU’s.

MC = 5040,00 EUR - 1549,83 EUR – 1183,40 EUR - 117,20 EUR - 169,86 EUR - 344,69 EUR = 2019,71 EUR   …por cada hectare considerado.

Multiplicando este valor unitário pela área em questão (23 ha) obtém-se a margem de contribuição total, ou seja 46453 Euros! Se ele lhe pagar 20% dá um valor de 9290,60 euros.

E concluí:

- Efectivamente, tio, o seu custo de oportunidade, o tal do início da nossa conversa, é enorme neste caso. Caso aceite o negócio das couves em detrimento dos seus direitos de RPU e das pastagens ganharia mais 6196,18 Euros do que ganha agora. Mesmo que afectássemos este valor de um prémio para risco, que lhe permitisse cobrir a incerteza do ano agrícola e dos preços das couves continuaria a ter um custo de oportunidade bem grande. Se de facto se sente com vontade, e tem confiança no João Miguel , não olhe para trás…

 

 

  

 

 

 

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