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Tractor novo ou talvez não... - Custos de utilização de equipamento

04/03/2008

A Agrogestão dá aqui continuidade ao curso de gestão agrícola que se desenrola ao longo dos números da Vida Rural de 2008. Este curso tem origem na adaptação de material pedagógico produzido pela ADISA, pelo IDRHa, pela Agroges e pela FZ Agrogestão, com os objectivos de permitir um salto qualitativo na gestão de empresas agrícolas e de criar um linguagem comum a todos os protagonistas da produção agrícola (técnicos e produtores). 

Cada número aborda um tópico inerente à gestão de empresas agrícolas de uma forma simples e prática. Os artigos retratam, na primeira pessoa, uma viagem do José Manuel, um agrónomo que decide visitar agricultores seus amigos em várias regiões do país a quem vai prestando auxílio nos problemas de gestão que os apoquentam nesse momento.

Neste número José Manuel encontra um amigo do Pai de Amarante, o João. No momento em que se encontram João considerava comprar um tractor.

 

Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avillez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

 

 

Estava eu a almoçar com o João quando passou pelo restaurante um amigo dele, o Joaquim Bernardo. Segundo a fama é um excelente mecânico e também vende máquinas e alfaias agrícolas em segunda mão. Aproveitando a ocasião o João disparou:

- Nem de propósito, estava aqui a falar com o filho de um velho amigo meu sobre o tractor novo que vou comprar:

Um Ford com 55cv, 24560 Euros de preço, com 20% de desconto, que me vai durar, seguramente, pelo menos 14 anos sem dar grandes preocupações. Diz lá no folheto que terá um custo de manutenção estimado de 4% do valor inicial! E ainda por cima gasta pouco: 0,1 litros de gasóleo por hora de trabalho e por cada cavalo de potência. Bom negócio, não te parece Quim? – perguntou-lhe entusiasmado.

- Ó homem, mas tu não tens que fazer ao dinheiro?! - perguntou o outro indignado. – Tenho lá um, com seis anos por 10000 Euros! E se me pagares um almoço ainda te faço 10% de desconto! Gasta um pouco mais, é certo: 0,15 litros por hora de trabalho e por cada cavalo de potência e tem custos de manutenção um pouco acima (8% do valor inicial) mas ainda ficas com tractor para 8 anos - disse entusiasmado– Pensa bem e dá-me uma resposta até ao fim da semana. Um abraço! - e saiu que nem uma flecha…

O João ficou baralhado. Depois de um segundo de diversão, resolvi acudir-lhe naquilo que sei:

- Calma, ora diz-me lá quantas horas pensas utilizar o tractor por ano? 200? 300?

- Cerca de 250.

- Certo, então precisamos apenas de mais dois dados para começar a fazer contas. 1) O valor dos impostos e dos seguros, que normalmente atingem os 1,5% do valor inicial do equipamento e; 2) o custo de oportunidade do capital a investir no tractor, que vamos assumir poder ser de 5%.

- Hã? Que é lá isso? Custo quê?

- Custo de oportunidade...diz lá a quanto é que te rende o dinheiro no banco?

- Tens razão. As aplicações que tenho andam à volta dos 5%.

- Ora aí tens!

Acabado de dizer isto, comecei a explicar-lhe como se solucionaria a questão da compra dos tractores. Comecei por expor um conjunto de conceitos que seriam indispensáveis na identificação da melhor solução.

- Vamos começar pelos custos... Pensa comigo, quando utilizas o teu tractor qual é a tua principal preocupação?

- O gasóleo! - respondeu-me sem hesitar.

- Como eu suspeitava, tu realçaste o custo que para ti era mais óbvio, o custo com os combustíveis. De facto, de cada uma das vezes que necessitaste utilizar o teu tractor tiveste a preocupação de verificar se terias ou não de o abastecer com combustível, certo?

- Certo! - voltou a responder-me.

- E quanto mais utilizavas o tractor, mais vezes tinhas de abastecer, certo?

- Óbvio. – curto e seguro uma vez mais.

- Pois bem, a esse tipo de custo chama-se custo variável e isto porque varia com o nível de utilização. Poderá ser o gasóleo do teu tractor, os lubrificantes ou outro custo qualquer que varie com o uso que lhe dás. Por oposição existe um outro tipo de custos que se chamam custos fixos. Estes custos resultam, neste caso específico, da própria existência do tractor. Um exemplo clássico de custo fixo de um tractor é a sua amortização. Quer utilizes o teu tractor, quer o deixes sossegado debaixo do alpendre, terás sempre o custo relativo à sua amortização. Este tipo de custo, por não variar com o nível de utilização, é designado por custo fixo. - expliquei-lhe enquanto afastava os copos que tínhamos à nossa frente.

- Tendo por base estes dois tipos de custos, resta-nos contabilizar cada um deles, para cada uma das opções em jogo, para seleccionar a que melhor te convém. - e comecei a escrever num canto da toalha de papel que servia, agora, de bloco de notas.

- Começaremos por calcular o valor real de aquisição de cada um dos tractores:

Novo (valor de Aquisição): 24560 EUR x (1 - 0,2) = 19648 EUR

Usado (valor de Aquisição): 10000 EUR x (1 - 0,1) = 9000 EUR

Partindo dos valores de aquisição, calculam-se os respectivos valores residuais e valores médios dos equipamentos, que seguidamente serão utilizados no cálculo, quer do valor das amortizações, quer do custo de oportunidade do capital empatado.

Usualmente consideram-se os valores residuais iguais a 10% do valor de aquisição.

Novo (valor Residual): 19648 EUR x 10% = 1964,8 EUR

Usado (valor Residual) : 9000 EUR x 10% = 900,0 EUR

Novo (valor Médio): (19648 EUR - 1964,8 EUR) / 2 = 8841,60 EUR

Usado (valor Médio) : (9000 EUR - 900,00 EUR) / 2 = 4050,00 EUR

Daqui para a frente estamos em condições para calcular os custos fixos de ambos os tractores. Começaremos pelas amortizações...

Novo (valor da amortização)=(19648 EUR - 1964,8 EUR) / 14 = 1263,09 EUR

Usado (valor da amortização)= (9000 EUR - 900,00 EUR) / 8 = 1012,50 EUR

...passando de seguida para os custos associados ao empate do capital investido nos respectivos tractores...

Novo (custo oportunidade do capital) = (8841,60 EUR x 5%) = 442,08 EUR

Usado (custo oportunidade do capital) = (4050,00 EUR x 5%) = 202,50 EUR

... não esquecendo os custos relativos aos impostos e seguros...

Novo (custos seguros e impostos) = (8841,60 x 1,5%) = 132,62 EUR

Usado (custos seguros e impostos) = (4050 EUR x 1,5%) = 60,75 EUR

E pronto, estamos em posse de todos os dados para calcular o nosso primeiro resultado, os custos totais das alternativas em estudo:

Novo (custos totais) = (1263,09 EUR + 442,08 EUR + 132,62 EUR) = 1837,79 EUR

Usado (custos totais) = (1012,50 EUR+ 202,50 EUR+ 60,75 EUR) = 1275,75 EUR

Este resultado ponderado pelo nível de utilização anual prevista (250 horas) origina o custo total unitário:

Novo (custos totais unitários) = 1837,79 EUR / 250 horas =7,35 EUR/hora

Usado (custos totais unitários ) = 1275,75 EUR /250 horas = 5,10 EUR/hora

- Bom, até aqui tudo foi pacífico para ti, ou tiveste alguma dúvida? - perguntei-lhe tentando não ser demasiado catedrático.

- Assim, passo a passo, é bastante mais fácil de acompanhar o raciocínio – retorquiu.

Continuei:

- Já com os custos fixos calculados, passamos rapidamente para o cálculo dos custos variáveis. Neste tipo de custos estão incluídos os custos com combustíveis e lubrificantes, a mão-de-obra do operador (considerando um custo médio/hora de 8 Euros), filtros e reparações. Começando pelos custos de gasóleo:

Novo (custos combustível) = 0,1 litro x 55 cv x 250 horas = 1375,00 EUR

Usado (custos combustível ) = 0,15 litro x 55 cv x 250 horas = 2062,50 EUR

...passando rapidamente pelos custos com as reparações...

Novo (custos reparação) = 19648 EUR x 4% = 785,92 EUR

Usado (custos reparação ) = 9000 EUR x 8% = 720,00 EUR

... e com os filtros e lubrificantes (assume-se como estimativa que estes custos representam cerca de 15% do custo total com os combustíveis)...

Novo (custos manutenção) = 1375,00 EUR x 15% = 206,25 EUR

Usado (custos manutenção ) = 2062,50 EUR x 15% = 309,38 EUR

... terminando com os custos associados à mão-de-obra do operador (apesar do nível de utilização anual ser de 250 horas

de máquina, neste calculo deverá ser levado em consideração as horas gastas em reparações e manutenção)...

Novo e Usado (custos mo) = (250 horas + 50 horas) x 8 EUR = 2400 EUR

Nesta fase somos capazes de calcular os custos variáveis de cada uma das alternativas que estamos a analisar...

Novo (custos variáveis) =1375,00 EUR + 785,92 EUR + 206,25 EUR + 2400 eur="4767,17" EUR

Usado (custos variáveis ) = 2062,50 EUR + 720,00 EUR + 412,50 EUR + 2400 eur="5491,88" EUR

Este resultado ponderado pelo nível de utilização anual prevista (250 horas) origina o custo total unitário:

Novo (custos Variáveis unitários) = 4767,17 EUR / 250 horas =19,07 EUR/hora

Usado (custos Variáveis unitários ) = 5491,88 EUR / 250 horas = 21,97 EUR/hora

Somando estes últimos resultados com os resultados obtidos no cálculo dos custos fixos podemos finalmente calcular os custos totais e os custos totais unitários:

Novo (custos totais) = 1837,79 EUR + 4767,17EUR = 6604,96 EUR

Usado (custos totais) = 1334,25 EUR + 5595,00 EUR = 6767,63 EUR

Novo (custos unitários totais) = 7,35 EUR/hora + 19,07 EUR/hora = 26,42 EUR/hora

Usado (custos unitários totais) = 5,10 EUR/hora + 21,97 EUR/hora = 27,07 EUR/hora

Ao chegar a estes resultados disse-lhe, com a sensação vitoriosa de ser eu a ensinar o que tinha passado uma boa parte da vida de faculdade a aprender:

- Meu caro João, as contas não enganam. Quando nada à partida faria supor, vai sair-te mais caro comprares o tractor usado do que o novo.

 

Esquema Resolução:

 

 

 

 

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