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Colher ou não colher - eis a questão! - Limiares de rentabilidade e de encerramento

05/05/2008

A Agrogestão dá aqui continuidade ao curso de gestão agrícola que se desenrola ao longo dos números da Vida Rural de 2008. Este curso tem origem na adaptação de material pedagógico produzido pela ADISA, pelo IDRHa, pela Agroges e pela FZ Agrogestão, com os objectivos de permitir um salto qualitativo na gestão de empresas agrícolas e de criar um linguagem comum a todos os protagonistas da produção agrícola (técnicos e produtores). 

Cada número aborda um tópico inerente à gestão de empresas agrícolas de uma forma simples e prática. Os artigos retratam, na primeira pessoa, uma viagem do José Manuel, um agrónomo que decide visitar agricultores seus amigos em várias regiões do país a quem vai prestando auxílio nos problemas de gestão que os apoquentam nesse momento.

Neste número José Manuel encontra um amigo de faculdade, o José Tibério, que participava numa discussão com o sócio do pai sobre a apanha da maçã bravo de esmolfe no pomar de 5 hectares que geriam em conjunto.  

 

Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avillez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

 

Aparentemente, a concorrência do país vizinho fez-se sentir e os preços das “Bravas” maçãs caiu, apesar da sua incontornável superior qualidade. O tempo não ajudou, e as perspectivas para a próxima campanha também não são animadoras… Quando o José Manuel chegou a discussão ia animada:

-Então mas tu não vês que, contas feitas aos preços, vamos gastar mais 16000 EUR do que o proveito que vamos obter com a venda da fruta??!! A continuar assim fechamos as portas já este ano, que eu tenho mais do que fazer do que andar a perder dinheiro!!! - Disse o José Tibério, gesticulando enervado.

- Mas, oh homem, se fechamos as portas quem é que paga as máquinas, as árvores e o ordenado do Tibúrcio??!! Sabes bem que só as receitas da batata não chegam para tudo! - Retorquiu o sócio do pai, João Abúndio.

Ao verem-me aproximar, depois dos cumprimentos iniciais, aproveitaram e pediram-me opinião. Não me pareciam muito esperançados nas minhas opiniões, mas acho que acreditavam que três numa discussão é sempre melhor que dois. Sempre ajuda a conversa a pender para algum lado. Eu, da minha parte, acedi satisfeito. Era também para isto que lá tinha ido de qualquer modo.

- Bom, meus caros amigos, pelo que ouvi as coisas não andam fáceis. Os proveitos do pomar não cobrem todos os custos e, neste momento, é a continuidade da própria actividade que está em causa. O que querem saber é se, face à actual conjectura de preços, devem realizar a colheita ou deixar a fruta nas árvores, certo? Fazemos o seguinte, os meus caros passam-me os vossos dados relativos à cultura do pomar e eu ajudo-vos a tomar uma decisão, de acordo? - Perguntei.

Felizmente as minhas anteriores visitas ao meu amigo José Tibério em Penalva do Castelo já me tinham permitido adquirir alguma confiança junto do sócio. Após uma pausa para reflectir acedeu:

- Pois sim! Vamos lá ver isso!

Os dados que me foram apresentados foram as seguintes:

Informação sobre proveitos:

Preço por quilo de maçã = 0.3 EUR

Produção unitária obtida = 8000 quilos

Produção total obtida (vezes 5 hectares) = 40000 quilos

Custos:

Adubação de cobertura = 228 EUR /ha.

Adubação de fundo = 115 EUR /ha

Custo instalação anualizado do pomar = 8300 EUR

Estrumação = 300 EUR /ha

Amortização dos equipamentos = 3580 EUR

Rega = 100 EUR /ha

Fitofármacos = 740 EUR /ha

Mão-de-obra colheita = 730 EUR /ha

Mão-de-obra Tibúrcio = 5250 EUR

Face aos elementos que me disponibilizaram, comecei por explicar os conceitos envolvidos, necessários à tomada de decisão.

- Meus caros, antes de mais, é de primordial importância que procedamos à classificação das diversas rubricas de custos através de critérios custo-volume.

Neste sentido começaremos, então, por classificar e dividir todos os custos em custos fixos e em custos variáveis.

- Como exemplo dos primeiros temos o ordenado do Tibúrcio ou a amortização das máquinas e infra-estruturas; como exemplo dos segundos temos a energia e água consumida na rega, os adubos incorporados ou a mão-de-obra da colheita. Estamos de acordo até aqui? - Perguntei convicto.

Apesar das expressões faciais não corresponderem, confirmaram com um pequeno gesto de cabeça. Aproveitei para continuar…

- Óptimo, vamos então proceder à classificação dos diferentes tipos de custos:

Passo 1 – Classificação dos custos por critérios de custo-volume

Classificação dos custos Custos (EUR)

Adubação cobertura

228

Adubação de fundo

115

Estrumação

300

Rega

100

Fitofármacos

740

MO eventual colheita

730

Total de Custos Variáveis/ha

2213

Amortização equipamentos

3580

Custo instalação anualizado

8300

MO Tibúrcio

5250

Total de Custos Fixos

17130

- Após a classificação das diferentes rubricas de custos, o passo seguinte consistirá no cálculo de cada uma delas para a totalidade da área em questão, ou seja, para os 5 hectares de macieiras.

Passo 2 – Cálculo dos custos unitários e totais

Custos Variáveis totais (CVT) =custos variáveis unitários (CVU) x área em produção (5ha)

Custos Variáveis totais (CVT) = 2213 EUR. x 5 ha = 11065 EUR

Custos Fixos Totais (CFT) = 17130 EUR

- Como podem verificar, os custos fixos não são multiplicados pela área da exploração agrícola em produção, uma vez que já são apresentados para a sua totalidade nos dados iniciais. No caso de se necessitar de realizar uma afectação unitária dos custos fixos específicos, dividem-se os custos fixos totais pela superfície em produção, num processo inverso ao realizado anteriormente.

Custos totais (CT) = CFT + CVT

Custos totais (CT) = 11065 + 17130 = 28195 EUR.

- Calculados os custos totais, debruçar-nos-emos, de seguida, sobre os proveitos gerados, unitariamente e para a superfície total de exploração…

Passo 3 – Cálculo dos proveitos unitários e totais, caso se proceda à colheita

Proveitos totais unitários (PTU) = Preço unitário (EUR/kg) x Produção unitária (kg/ha)

Proveitos totais unitários (PTU) = 0,3 x 8000 = 2400 EUR/ha

Proveitos totais (PT) = RTU x área em produção

Proveitos totais (PT) = 2400 EUR/ha x 5 = 12000 EUR.

Terminados os primeiros cálculos de base, lancei o desafio:

- Bom, meus caros, as contas não são famosas! Podemos gerar 12000 EUR de proveitos para 28195 EUR de custos… à partida o que vos parece? Nesta fase podem colocar-se dois tipos distintos de dúvidas: Deverão ou não colher as maçãs este ano e deverão ou não abandonar a actividade.

Continuei, explicando:

- Exclusivamente com base nos custos e nos proveitos totais não se poderão tomar as decisões necessárias. Para tomar a decisão de colher deverão ser levados em consideração exclusivamente os custos variáveis da colheita e os proveitos geradas com a venda da produção. Caso os custos de colheita sejam inferiores aos resultados gerados pelas vendas, a opção deverá incidir, sem dúvidas, sobre a realização da colheita e a continuação da actividade, já que esse proveito, para além de cobrir os custos variáveis da colheita, poderá ainda desagravar os custos remanescentes, sejam variáveis ou fixos. Entenderam? Vamos utilizar os vossos valores para exemplificar…

Os custos variáveis de colheita são 730 EUR por hectare ou 3650 EUR nos 5 hectares, certo? O proveito esperado pela venda das maçãs é de 2400 EUR por hectare ou 12000 EUR na totalidade. Face ao que vos disse anteriormente, é claramente preferível proceder à apanha das maçãs. Caso o façam, para além de cobrirem os restantes custos variáveis (11065 EUR) ainda cobrem 935 EUR dos custos fixos! Este tipo de análise está directamente relacionado com o conceito de limiar de encerramento. Este conceito aponta para o valor de proveitos que iguala os custos variáveis, abaixo do qual é preferível encerrar a actividade:

Proveitos Totais = Custos Variáveis - Limiar de encerramento

Proveitos Totais < Custos Variáveis - Encerramento da actividade

Proveitos Totais > Custos Variáveis - Continuação da actividade

- Então deixa-me ver se eu entendi. - Interrompeu-me o Zé. – Caso os proveitos totais cubram os custos variáveis a actividade é rentável?

- Não. - Respondi eu. – Quer dizer que é preferível continuar a actividade do que abandonar. Mas já que falas nisso podemos conversar um pouco sobre um outro conceito: o de limiar de rentabilidade. Este conceito diz-nos a partir de que volume de produção, assumindo um determinado preço, os proveitos cobrem a totalidade dos custos e, desta forma, se torna rentável produzir. Matematicamente pode ser calculado da seguinte forma:

Quantidade = Custos Totais / Preço ou de outra forma

Custos Fixos Totais / Quantidade + Custos Variáveis unitários = Preço

- Vamos então calcular o limiar de rentabilidade do vosso pomar:

Custos Fixos Totais = 17130 EUR

Custos Variáveis Unitários = 2213 EUR /ha x 5 = 11065 EUR

Preço = 0,3 EUR

Q = ?

Aplicando a formula anterior obtém-se:

 [17130 / (5 x Q)] + 2213 / Q = 0.3 <->

[17130+11065] / (5 x Q) = 0.3

5 x Q = 28195 / 0.3

Q = 93983 kg

Ou seja

18797 kg por hectare

Satisfeitos os ouvintes com o resultado da conversa resolvi sugerir que agora me fossem eles ensinar qualquer coisa sobre o que andam a fazer no campo.

 

 

 

 

 

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