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Vai à máquina ou à mão? - Orçamentos parciais de substituição

26/05/2008

José Manuel encontra os seus amigos Senhor Silva e Luís, respectivamente empresário e técnico de exploração. O Senhor João Silva possui uma exploração agrícola bastante diversificada. Entre as diferentes actividades conta-se uma vinha nova de 30 ha cuja vindima ele pretende mecanizar. Embora empiricamente tivesse uma ideia dos dados que necessita recolher, encontrava-se com alguma dificuldade em organizá-los de modo a que pudesse tomar uma decisão quanto à melhor forma de realizar a vindima. Recorre, por isso, aos serviços do seu técnico Luís.

 

 Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avillez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

 

 

 

 

Ao ver chegar o José Manuel o senhor João Silva mostrou-se espantado:

- Olá José Manuel. Então o que te traz por cá?

- Estou de visita ao Luís para que ele me mostre em que consiste o trabalho dele de modo a aprender mais alguma coisa sobre a prática da agricultura.

- Olha eu vinha mesmo agora falar com o Luís. Senta-te aí e participas na conversa. Sabes que replantei a minha vinha há pouco tempo. Na altura deixei tudo feito de maneira a permitir a mecanização das operações, mas estou com alguns problemas em decidir se avanço para a colheita mecanizada. Já perguntei aqui e ali por preços e técnicas, mas ando perdido no meio dos papéis!

- Mostre lá isso! – arrisquei.

- Bom, pelo que tenho investigado a vindima mecânica tem as seguintes necessidades de máquinas e mão de obra:

Tractor:

3 h/ha

Mão de obra:

3,5 h/ha

Máquina de vindimar:

1,5 h/ha

 

 - Quanto ao custo da mão-de-obra, vamos assumir uma valorização de mercado. Quanto ao resto, já tem ideias quanto aos custos relativos à máquina de vindimar e tractor?

- Vamos por partes. Vou utilizar os meus 2 tractores. Enquanto um entrega as uvas na adega, o outro está com a máquina de vindimar. Como já tenho um sistema de controlo de gestão bem implementado sei que, cada um deles, me custa 8 EUR/hora, entre amortizações, gasóleo, seguros e tudo! Quanto à mão-de-obra o preço praticado na região é de 4,5 EUR/hora. Para a máquina de vindimar, das conversas tidas com vários vendedores e prestadores de serviços, os preços que encontrei, para máquinas de boa qualidade e que não me danifiquem as uvas nem as videiras, foram os seguintes: 

Alugada

100 EUR /hora

Comprada

30 EUR /hora

 

- Oh, Sr. Silva, onde é que foi arranjar esse custo de 30 EUR/hora?! – desconfiei, enquanto o Luís franzia também o sobrolho.

- Calma. Este custo horário resulta da divisão dos custos totais anuais por mil horas de utilização.

- 1000 horas?! Ó homem, mas isso não me parece possível! Fazendo contas de cabeça, face à dimensão da vinha, vai ficar muito aquém das 1000 horas de utilização, temos de levar isso em consideração! – exclamou o Luís e acrescentou – De qualquer forma, e antes de mais, é preciso não esquecer que a mudança do sistema de colheita terá repercussões na tecnologia que se tem utilizado até agora. Por exemplo, se vindimar mecanicamente terá de realizar sempre um tratamento fitossanitário suplementar para garantir que a pele da uva não está frágil para não vir a perder mosto. Além disso se não garantir um bom estado sanitário vai comprometer o desempenho da máquina. Outra coisa: com certeza vai perder em produtividade e possivelmente também no preço da uva, devido à quebra na qualidade.

- Bom quanto ao tratamento fitossanitário, não tinha pensado nisso, mas, pelas minhas contas, cada tratamento custa-me à volta dos 3,8 EUR/ha.

- Vejo que tem andado a fazer os trabalhos de casa! – amenizei.

- É verdade!... E quanto à produção, actualmente estou com uma média de 4.300 kg/ha e não devo baixar dos 4.150! Relativamente ao preço da uva, estive a conversar com o enólogo da adega e ele disse-me que dá prioridade de entrada às uvas vindimadas mecanicamente, para que o mosto das uvas que tenham sido esmagadas durante a vindima não comece a fermentar. Mesmo assim é melhor contar com um ligeiro decréscimo da qualidade que não se repercutirá em mais de 2 cêntimos! De 0,78 para 0,76 EUR/kg, portanto!

- Só falta dizer-nos o que é que vai deixar de fazer ao mecanizar a vinha.

- O objectivo é diminuir a mão-de-obra actual da vindima que se encontra à volta das 100 horas por hectare! É claro que também vou diminuir as horas de tractor de 7h/ha para as 3 de que vos tinha falado.

- Muito bem, Sr. Silva. Não só tem mantido um controlo impecável da sua exploração, como fez uma boa recolha de dados. Agora é só organizá-los! Vamos fazer um quadro, onde pomos em coluna os factores de produção que irão sofrer alterações e o respectivo custo unitário. Depois fazemos uma coluna com a utilização dos factores e o respectivo custo depois da mecanização. Nessa coluna vai pôr também o valor da produção de uva que tem actualmente.

- Já percebi. Uma vez que deixo de obter essa produção e esse preço por quilo, é como se isso fosse também um custo da substituição.

- Isso mesmo. Agora fazemos uma coluna com aquilo que vai deixar de utilizar por mecanizar a vindima. Vamos chamar-lhe proveitos da substituição, uma vez que são custos que desaparecem.

- Exacto, José Manuel! A lógica é a mesma! Como deixo de ter esses custos é como se fosse um proveito! E, deixa-me adivinhar, no fim da coluna dos proveitos ponho a produção e o preço de venda da uva que espero obter!

- Ora aí está! Ficamos com uma tabela assim:

  

 

  - Já viste isto, Luís! Afinal era bem fácil! – proclama o Sr. Silva virando-se para o meu amigo - Agora é só tirar os custos aos proveitos e fico com o benefício da substituição!

- Isso, vamos lá então:

Benefício da substituição = (506 + 3.154) - (193,6 + 3.354) = 112,4 EUR/ha

- Em 30 hectares tenho um aumento de rendimento de 3372 EUR!

- Parece que por aqui não vai mal! Há no entanto uns pormenores que têm de ser limados. Mas vamos ver primeiro o que é que aconteceria se tivesses uma máquina!

- Se não estou enganado é só substituir a linha relativa à máquina de vindimar. Por isso fica assim:

 

 

 Benefício da substituição = (506 + 3.154) - (88,6 + 3.354) = 217,4 EUR/ha.

- O que dá um benefício de 6522 EUR em 30 ha!

Foi aqui que o Luís, também ele dado à gestão, interveio:

- Cuidado, João! Não te precipites! Estás a esquecer-te de alguns conceitos fundamentais sobre os quais já conversámos outras vezes!

- Já sei, os 30 EUR/ha têm em conta uma utilização de 1.000 horas por ano!

- Sim, isso e não só. Quanto às mil horas por ano, poderás ver se a máquina realiza outras operações como a prépoda, a despampa ou o desladroamento. Nesse caso aumentarás em muito as horas de utilização da máquina. É claro que terás de fazer para o conjunto destas operações o mesmo tipo de orçamento parcial de substituição que fizemos para a vindima! Mesmo assim estou convencido que ainda te vão sobrar muitas horas!

- Também acho que sim!

- Recomendo-te, então, que faças duas coisas: aches o limiar de rendibilidade (ver artigo anterior) para o número de horas de utilização da máquina, de modo a saberes qual é o mínimo de horas que a máquina terá de ser usada para se tornar rentável.

Fala também com os nossos vizinhos viticultores que poderão estar interessados em alugar uma máquina abaixo dos 100 EUR /hora pedidos pela empresa de serviços.

- É, verdade, vou ter de pensar melhor nisto tudo! Mas disseste-me que devia entrar em linha de conta com outras coisas!

- João, repara que estiveste a fazer alterações na utilização de factores que envolvem custos fixos. Eu sei que, quanto à mão-de-obra, a única permanente é a minha, e essa continuará a ser aproveitada a 100%, estou certo! Mas e o tractor?

- Pois o tractor vai estar parado, mas o seguro e a amortização continuam lá!

- Esta conversa dava pano para mangas, mas não temos de empatar o Zé com isto! Logo continuamos a conversa!

- Combinado!

 

 

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