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Pessoas: que dor de cabeça - Gestão de Recursos Humanos

06/04/2009

Preparando-se para a etapa final, José Manuel passou ainda por Abrantes. Não podia imaginar o que o esperava. Não era um dos episódios mais gratificantes da vida de um gestor, mas era sem dúvida um assunto da maior importância. Foi ao visitar um dos seus tios, irmão de sua mãe que sucedeu o que se passa a descrever

 

Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avillez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

- Como sabes, Zé Manel, faz agora seis meses que herdei esta pequena propriedade rústica com cerca de 22 hectares de terra de qualidade razoável, já que à tua mãe e aos teus outros tios isto não diz nada. Foi-me deixada por um tio-avô nosso, agricultor de raça, que fez dela a sua ocupação e sustento durante mais de 40 anos. Apesar de pequena, a propriedade tem uma casa senhorial muito bonita, a precisar de alguma recuperação, mas de tal forma apetecível que me mudei para cá de armas e bagagens. Sempre imaginei esta casa rodeada de vinhas douradas pelo Sol de Setembro, envolta na azáfama e nos corrupios próprios das vindimas… É um velho sonho que tenho, inevitavelmente adiado para daqui a uns anos na medida em que, para já, a minha vida não está para aventuras.

Não querendo arriscar fazer a “minha vinha”, resta-me gerir sensatamente o que aqui existe. E o que aqui existe são 22 hectares de terra, tradicionalmente repartidos de forma igual entre a cultura da batata e a cultura do milho.

“Herdei” ainda, para além da propriedade, um casal de caseiros, ele agricultor a tempo inteiro e ela a metade do tempo, e um tractorista. Todas as necessidades extra de mão-de-obra têm sido contratadas à jorna ou à hora, sempre que tal se verifique necessário.

Habituado a vir para aqui para estar com o meu tio, com o teu tio-avô, nunca pus nada do que ele fazia em questão e muito menos o aparelho de produção existente, até ao dia em que assumi a gestão deste espaço. Agora percebo que vai sendo tempo de reequacionar este projecto nas suas diferentes vertentes (actividades agrícolas desenvolvidas, tecnologias praticadas, mão-de-obra, parque de máquinas, etc.) e decidi começar pelas questões relacionadas com a mão-de-obra, muito embora entenda que todas essas vertentes se interrelacionem.

A principal questão que me surgiu foi a seguinte: Estará o actual quadro de pessoal estruturado na sua forma mais eficiente face, quer às necessidades das actividades, quer às alternativas de mão-de-obra existentes?

É um processo delicado,... e sinceramente preferia fazê-lo com alguém de fora – fez uma pausa. - Queres ajudar-me?

Disse-lhe que sim. Para iniciar o processo de análise comecei por elaborar um pequeno quadro de modo a relacionar e escalonar no tempo as necessidades que as duas actividades agrícolas até agora praticadas, a batata e o milho, têm em mão-de-obra ao longo do ano. O resultado desse exercício foi o seguinte:

Ao construirmos o quadro dividimos a mão de obra entre especializada e não especializada. A mão de obra especializada refere-se ao tractorista que não só realiza um trabalho para o qual os outros dois empregados não são habilitados, como neste caso também não realiza qualquer outro tipo de trabalho senão aquele para o qual se encontra especializado. Pelo contrário a mão de obra não especializada – a dos caseiros – realiza um sem número de tarefas, mas não possui habilitações para a realização de trabalho de tractorista.

A observação deste quadro permitiu-me equacionar duas ou três hipóteses alternativas de gestão dos recursos humanos necessários à realização destas duas actividades agrícolas, pressupondo que o meu tio as manteria no futuro.

As hipóteses que formulei na minha cabeça e apresentei ao meu tio eram claras e deveriam ser analisadas na perspectiva da poupança de custos que cada uma geraria, caso implementada. Pareceu-me claro, também, que os actuais recursos de mão-de-obra permanente do meu tio estariam de alguma forma sub-utilizados, já que as duas actividades agrícolas não os ocupam grande parte do ano. Partindo deste contexto, as hipóteses alternativas que me propus equacionar foram as seguintes:

Hipótese 1: Dispensar o tractorista que trabalha a tempo inteiro, contratando os serviços de um tractorista com base nas necessidades horárias ou diárias das actividades agrícolas;

Hipótese 2: Dispensar o tractorista que trabalha a tempo inteiro, afectando o “cabeça de casal” dos meus caseiros a essa função, após a aquisição das habilitações necessárias;

Hipótese 3: Dispensar quer o tractorista, quer o “cabeça de casal”, ficando unicamente no quadro de pessoal a sua mulher, que desempenhará funções agrícolas em 50% do seu tempo.

Hipótese 0: Situação existente.

Formuladas as diferentes hipóteses, agreguei, com a ajuda do meu tio, toda a informação relevante num pequeno quadro.

Relacionando esta informação, com os planos das necessidades de mão-de-obra, consigo perceber qual das hipóteses que formulei será mais vantajosa no futuro da exploração.

Uma das questões sempre pertinentes na gestão da mão-de-obra está directamente relacionada com o facto deste ser um recurso tipicamente não acumulável e indivisível.

Contrariamente ao que acontece com a generalidade dos recursos que se encontram à disposição de um empresário agrícola, a mão-de-obra hoje disponível não se pode acumular fisicamente para futuras utilizações em períodos de necessidade. Neste contexto, num quadro de pessoal permanente (como os dois caseiros e o tractorista de casa do meu tio), todas as horas disponíveis não utilizadas são irremediavelmente perdidas, pois traduzem-se em custos fixos. Por outro lado, como é óbvio, cada pessoa é “una e indivisível” e não é possível partir ao meio cada uma das pessoas que compõem a uma força de trabalho para afectar metade de cada uma delas a determinadas tarefas que sejam necessárias desempenhar simultaneamente.

Feita esta reflexão junto do meu tio, e compreendidas estas particularidades da mão-de-obra, interessava-nos perceber qual das hipóteses que formulara lhe seria mais vantajosa do ponto de vista dos custos, partindo do pressuposto de que o meu tio realizaria todas as operações culturais de acordo com o plano de necessidades que havíamos rabiscado anteriormente (quadro 1).

Desta forma comecei por calcular os custos com pessoal relativos àquela que era a situação actual e que tinha designado de H0.

Hipótese H0 – Situação Existente

1. De acordo com a equipa de mão-de-obra que existia na quinta, elaborei um quadro adicional, relativo à mão-de-obra especializada (tractorista) e à mão-de-obra não especializada (os dois caseiros).

O raciocínio que segui na elaboração destes quadros baseou-se no pressuposto de que cada um dos trabalhadores trabalharia 8 horas por dias, 25 dias por mês, caso trabalhasse a tempo inteiro. Uma vez que a mulher do caseiro dedica metade do seu tempo às lides domésticas, considerei exclusivamente 4 horas por dia, 25 dias por mês.

Exemplo (Tractorista): 8 x 25 = 200 horas/mês

Exemplo (mulher caseiro): 4 x 25 = 100 horas/mês

Com base nestes pressupostos construí, então, o seguinte quadro:

2. Pela diferença entre as necessidades de mão-de-obra que calculei no quadro 1 e as disponibilidades garantidas quer pelo tractorista, quer ainda pelos dois caseiros, calculei o número de horas de mão-de-obra eventual que o meu tio teria de contratar, à hora ou à jorna, especializada (tractorista) e não especializada (quadro 4) e que por isso representaria um custo variável, existente apenas quando o trabalho a realizar assim o exigisse.

 

Com este quadro identifiquei claramente os meses críticos quanto a necessidades de mão-de-obra (Março a Julho em MOnão especializada e Março, Maio, Junho e Julho em tractorista).

As necessidades de contratação externa de Indiferenciados são de 1302 horas (147 + 192+187+327+448) e 417 Horas (185 + 69+162) para Tractoristas.

Esta análise permitiu também perceber que, na maioria dos restantes meses do ano, os 3 trabalhadores se encontrariam perfeitamente ociosos e desocupados.

3. Com o volume de mão-de-obra eventual necessária calculado, passei a dispor de todos os elementos para calcular os custos com pessoal relativos à presente situação de base.

a) MO Permanente não especializada:

Custo anual do trabalho dos caseiros = 14 (meses) x 650 EUR/mês x 1,5 = 9100 EUR/ano x 1,5 = 13650 EUR

Em que o valor 1,5 corresponde à soma do trabalho a tempo inteiro do caseiro e de metade do tempo de trabalho da sua mulher (1+ 0.5)

Custo anual do trabalho do tractorista = 14 (meses) x 700 EUR = 9800 EUR

Custo do trabalho eventual não especializado = 1.302 horas x 3 EUR/hora = 4067 EUR

Custo do trabalho eventual especializado = 417 horas x 5 EUR/hora = 2083

Somando todos os custos anteriormente calculados obtenho o custo com pessoal gerado pelo actual cenário H0 (29600 EUR por ano).

Este valor servirá de base de comparação aos custos gerados pelos 3 cenários alternativos que me propus analisar.

Neste sentido, o próximo passo será calcular os custos gerados pelas hipóteses H1, H2 e H3.

 

(Continua no próximo número)

 

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