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E quando tudo parecia não correr mal... - Gestão de risco

10/09/2008

José Manuel encontra um seu colega de faculdade, Jacinto Boaventura, que, tendo acabado o curso pouco após a entrada do José Manuel na faculdade, já se tinha instalado como agricultor havia alguns anos. Tendo herdado a exploração agrícola de seu pai, na região do Algarve, modernizou-a e explora um pomar de laranjeiras, cultiva uma área onde produz hortas, e tem ainda uma parcela de regadio, onde tem cultivado Milho que vende para grão. Mas os tempos estão difíceis para o Jacinto, como para muitos dos seus colegas agricultores.

 

Francisco Gomes da Silva, Carlos Pedro Trindade, Frederico Avillez, José Pedro Salema, Luís Pereira

 

- É o risco desta actividade - disse-lhe eu tentando-o confortar - Talvez devesses passar a tomar algumas precauções.

Durante os dias seguintes o Jacinto concentrou-se em identificar algumas situações que não tinham, no passado, corrido como planeado, e a juntar informações o mais completas possíveis sobre cada uma delas.

Havia três anos desde aquela altura que o Jacinto tivera sido impossibilitado de colher o seu campo de Milho. Na visita que fizera ao campo a 1 de Setembro, planeara colhê-lo por volta de 20 de Setembro. Sempre perderia alguma humidade, tornando mais barata a secagem. No entanto, a partir do dia 15 de Setembro desse ano iniciara-se um período anormalmente longo e intenso de chuvas. O Jacinto contou-me que na altura fizera algumas tentativas sem resultado para entrar no campo com a ceifeira, mas à medida que o tempo passava tornara-se-lhe evidente que a sua seara estaria perdida. Finalmente, no dia 22 de Dezembro conseguira entrar no campo com a ceifeira.

Infelizmente era tarde de mais: o milho tinha acamado muito, havia já grãos germinados nas próprias maçarocas. Na altura percebeu que não valeria a pena colhê-lo.

Sobre este caso, e a meu pedido, juntou mais alguns dados:

    - Produção prevista a 1 de Setembro – 10,1 ton/ha com 30% de humidade

    - Produção prevista para 20 de Setembro – 9,2 ton/ha com 18% de humidade

    - Produção equivalente à saída do secador – 8,9 ton/ha com 15% de humidade

    - Preço do transporte – 10 EUR/tonelada húmida

    - Preço da secagem (para reduzir humidade de 30 a 15%) – 10 EUR/tonelada

    - Preço da secagem (para reduzir humidade de 18 para 15%) – 7 EUR/tonelada

    A questão que o Jacinto me colocou foi muito simples: que “precaução” poderia ele tomar para evitar ter perdido a sua seara?

    Caso o Jacinto tivesse pesado este risco das chuvas, poderia ter decidido colher, por exemplo, logo após ter ido visitar a seara no dia 1 de Setembro. Conforme me explicou, o que estava em causa daí para a frente, caso não colhesse a seara logo, não era o aumento da produção, mas sim a diminuição do teor de humidade do grão. Este facto tem importância, uma vez que quanto mais húmido estiver o milho mais cara é a secagem e o transporte para o secador (está a transportar mais água, pela qual não lhe pagam nada).

    Sugeri então:

    - Vejamos o valor que está em causa entre a opção “colheita a 1 de Setembro” e a opção “colheita a 20 de Setembro”.

    Colheita a 1 de Setembro:

    - custo de secagem por hectare = 10,1 ton x 10,0 EUR/ton = 101,0 EUR/ha

    - custo do transporte por hectare = 10,1 ton x 10,0 EUR/ton = 101,0 EUR/ha

    Colheita a 20 de Setembro:

    - custo de secagem por hectare = 9,2 ton x 7,0 EUR/ton = 64,4 EUR/ha

    - custo do transporte por hectare = 9,2 ton x 10 EUR/ton = 92,0 EUR/ha

    Ou seja, os custos a mais que a opção pela data de 1 de Setembro comportaria podem calcular-se da seguinte forma:

    Custos1 Setembro – Custos20 Setembro = 202,0 – 156,4 = 45,6 EUR/ha

    Como o Jacinto podia agora perceber, a grande diferença entre as duas datas de colheita traduzia-se num aumento de custos (e portanto, de diminuição do resultado económico liquido da cultura) de 45,6 EUR/ha.

    - Como vês, Jacinto – disse-lhe – é como se tivesses de pagar um valor de 45,6 EUR/ha para não correres o risco de perder a seara por causa das chuvas. Chama-se a isso prémio de Risco.

    - Bem visto. De facto poderia ter tomado essa precaução. Mas, tal como prometi, tenho mais situações sobre as quais gostaria de ter a tua sábia opinião. Ora ouve lá esta...

    - No ano passado tive uma proposta de uma empresa industrial para efectuar um contrato para escoamento da laranja. A dita empresa garantia-me a compra de toda a produção de laranjas, de acordo com um plano de entregas semanal, e fixando um preço por quilo para cada semana. Na altura comparei esses preços com aquilo que estimava que seriam os preços que conseguiria obter pelos canais de escoamento tradicionais, que sempre tinha usado. Achei que me estavam a oferecer pouco e rejeitei o contrato.

    E continuou:

    - Só que, tendo sido um ano de elevada produção na região, quando cheguei à fase final da campanha vi-me impossibilitado de escoar cerca de 17% da minha produção, que acabou por se deteriorar e ir para o lixo.

    De sorriso matreiro bem aberto, disparou:

    - Relativamente a esta situação, compilei alguma informação adicional para a poderes analisar, caro amigo:

    - Pois deverias ter tentado estimar qual a diferença de valor entre as duas opções. Mais uma vez, se calhar, a diferença poderia não ser muito significativa. Ou melhor: poderia ser um diferença que tu estarias disposto a aceitar para ter a segurança do escoamento. Entendes? Mas vamos lá fazer as contas...

    Para cada mês e para cada opção, multiplicámos preços por quantidades, e somámos os valores calculados para as 4 semanas, obtendo os seguintes resultados:

    Os valores apurados evidenciavam o que estava em causa. A linha de Contrato é a situação segura. O Jacinto poderia ter garantido uma receita total de 36000 Euros.

    A linha da Previsão exprime a expectativa que o Jacinto tinha antes da campanha se iniciar. A linha do Realizado exprime aquilo que acabou por se passar na realidade. É uma linha que, na altura em que ele teve que tomar a decisão, não existia. Na prática, o que estava em causa era optar pela segurança de uma receita de 36000 Euros (sem correr o risco de ficar com produção em casa, ou de o preço ser menor), contra a possibilidade de uma receita de 38400 Euros (com os riscos anteriormente descritos). Ou seja: 2.400 Euros seria de quanto o Jacinto teria de estar disposto a prescindir (quebra de receita) para “cobrir” os riscos associados ao funcionamento do mercado (preços e quantidades escoadas).

    As coisas correram pior do que aquilo que o Jacinto esperava, e acabou por ter uma receita de “apenas” 32000 Euros. Teria valido a pena efectuar o contrato.

    - E mais, Jacinto? – perguntei– Tens mais alguma situação relacionada com os riscos da tua actividade que gostasses de analisar?

    - Tenho pois...ora ouve lá esta... – respondeu o Jacinto - Há alguns anos fiz tomate. Na altura entendi não valer a pena efectuar um seguro de colheitas, essencialmente porque era, achava eu, demasiado caro. Só que um dia aconteceu o inesperado: uma forte queda de granizo estragou grande parte da produção que estava quase pronta a ser colhida, danificou seriamente os pequenos frutos ainda verdes em fase atrasada de maturação, destruiu uma grande parte da rama, expondo toda a produção ao sol e diminuindo claramente a capacidade de maturar os frutos que tinham escapado e criou condições para ataques muito fortes de fungos.

    Das contas que fiz na altura, eram estes os dados:

    - produção prevista antes da intempérie: 50 ton/ha

    - preço médio previsto antes da intempérie: 125 EUR/ton

    - custo de produção estimado: 4200 EUR/ha

    - prémio líquido (já bonificado) proposto pela seguradora para o seguro de colheita: 2,5% do capital seguro (ou seja 3,125 Euros por tonelada segura – 2,5% de 125 Euros)

    - produção realmente obtida: 10 ton/ha

    Começámos por tentar determinar quanto custaria o seguro, caso o Jacinto tivesse querido segurar toda a produção que previa obter (40 ton/ha):

    50 ton x 3,125 EUR/ton = 156,25 EUR /ha (custo de segurar toda a produção prevista para um hectare)

    Numa primeira análise poderá comparar-se o que teria acontecido caso o Jacinto tivesse efectuado o seguro sobre a produção prevista, com o que aconteceu na realidade:

    Situação real = venda de tomate – custos produção =

    = (10 x 125) – 4.200 = -2950 EUR/hectare

    Situação com seguro = (venda de 10 ton/ha + indemnização seguro) – (custos de produção + prémio de seguro) =

    [(10 x 125) + (40 x 125)] – (4200 + 156,25) = 6250,00 – 4356,25 = 1893,75 EUR /ha

    Da comparação resulta claro que o Jacinto teve um prejuízo de 2950 EUR/hectare, quando poderia ter um resultado positivo de 1893,75 EUR/hectare caso tivesse efectuado o seguro.

    - Mas repara, Jacinto. Poderias ter contratado o seguro por um preço mais baixo: bastava para isso que, em vez de quereres segurar a produção toda, segurasses apenas um volume que te permitisse cobrir os custos de produção. – disse-lhe.

    - Ai era? Olha se eu soubesse... Mas como é que eu faria essas contas?” – perguntou o Jacinto curioso.

    Segui explicando:

    - O primeiro passo seria perceber quantas toneladas de tomate seriam necessárias para cobrir a totalidade dos custos de produção:

    Produção necessária = custos / preço = 4200 / 125 = 33,6 toneladas/hectare

    - Se tivesses efectuado o seguro por forma a cobrir apenas 33,6 toneladas/hectare, terias pago um valor de prémio mais baixo por hectare (33,6 x 3,125 = 105 EUR/hectare).

    - Se assim tivesses feito, nesta situação o seguro compensar-te-ia um valor exactamente igual aos custos de produção. O resultado do tomate seria nulo.

    Como vês, Jacinto, quanto mais estiveres disposto a pagar de seguro (quantas mais toneladas segurares) , menor é o risco que corres. Claro que a companhia de seguros te impõe um limite ao valor do seguro. E também é claro que só te paga a indemnização se ocorrer algum fenómeno que estiver coberto pelas cláusulas da apólice. - concluí.

    - Já agora, Jacinto, aproveito para te dar mais algumas pistas que poderias ter utilizado para algumas das situações anteriores:

    Uma forma de diminuíres o risco, é não pores todos os ovos no mesmo cesto, ou seja, diversificares o mais possível as culturas que fazes em cada ano. Se o ano correr mal para umas, corre melhor para outras. Nunca ganharás tanto, mas também nunca perderás tanto; outra forma é, ao longo dos anos, ires pondo de parte algum dinheiro quando as coisas correm melhor, para que, nos anos em que existem mais problemas tenhas alguns fundos com que fazer face à situação. É aquilo a que se chama uma Reserva para Riscos.

     

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