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Não pactuar com o DIVIDIR-PARA-REINAR’

[ 04/10/2011 ]

O 'ruído' crescente que os sectores fornecedores vêm desenvolvendo, as referências da classe política de uma atenção em crescendo ao problema da comercialização de produtos nacionais na moderna distribuição ou as declarações recentes de membros do Governo colocando o dossier na linha de topo das suas prioridades de actuação, são sinais que contribuem para que o tema das relações produção-distribuição seja, não obstante os constrangimentos e receios sempre presentes, cada vez menos um dossier-tabú e cada vez mais um assunto para discussão e uma 'pedra-no-sapato' na operação de cosméstica que os operadores da distribuição permantemente desenvolvem.

 

São várias as formas de aferir como a tal 'pedra-no-sapato' é cada vez mais incómoda para as grandes cadeias do retalho! Multiplicam-se as iniciativas de puro 'show-off'. A corrente de patrocínios parece não ter fim. Todas as ocasiões são boas para passar a mensagem propagandística de apoio ao consumidor e de apoio à produção nacional. Acabaram os pruridos no que se refere a desferir ataques individuais em relação a pessoas, empresas ou entidades que não partilhem esta ‘cartilha’ e que tenham a veleidade de denunciar práticas e actuações que, sob a capa do interesse do consumidor ou do produtor, beneficiam apenas e só os operadores da moderna distribuição. O país atravessa uma crise profunda e os seus reflexos estão ainda longe de estarem totalmente percebidos e menos ainda absorvidos. Pessoas e empresas atravessam um período de enormes dificuldades, económicas e financeiras. Contudo, não deixa de ser curioso que - como se pode ler neste INFORMAÇÃO ANIL - dez das principais entidades do sector agro-pecuário tenham elaborado um memorando
conjunto (entretanto entregue a diferentes membros do Governo) em que afirmam, por exemplo, que “as dificuldades de relacionamento com a grande distribuição constituem, actualmente, um dos problemas mais complexos, senão mesmo o
estrangulamento com maior impacto negativo no desempenho do sector agro-alimentar nacional”. Como ‘curioso’ é também o facto de, face a uma natural contracção (em volume, mas, muito em especial, em valor) do consumo e a uma atitude muito defensiva do consumidor, a distribuição, no óbvio esforço de não penalizar, se não o volume de negócios, pelo menos as suas margens e resultados, não hesite em pressionar - ainda mais - o elo mais fraco da cadeia: os seus fornecedores.

 

As empresas assumem as suas crescentes dificuldades em fornecer os seus produtos nas condições exigidas e, consequentemente, em remunerar, de forma mais adequada, as matérias-primas que adquirem. Os produtores, por seu lado, confrontados com um forte agravamento dos custos de produção (que afecta também o sector transformador) tentam perceber, muito legitimamente, como se estrutura a cadeia de valor e de que forma se reparte pelos seus diversos elos.
É neste contexto que deve ser enquadrado o estudo encomendado pela CAP ao CISEP, sobre preços e margens nos sectores da carne e do leite, recentemente divulgado. Mas é também no contexto da complexidade das relações entre produção e distribuição que essa avaliação deveria ser feita, recusando facilitismos e análises apressadas, em que boas intenções são totalmente colocadas em causa por análises redutoras e enviesadas ou por utilização de dados estatísticos que estão longe, muito longe, de representar os efectivos fluxos financeiros associados aos fornecimentos de produtos daqueles sectores à moderna distribuição.

 

A forma como aquele estudo foi apresentado, as consequências extraídas ou os preconceitos enunciados, transformaram uma intenção lógica e legítima, num manifesto propagandista de ataque à indústria de lacticínios nacional, que recolhe,
transforma e tenta valorizar da forma mais adequada os milhões de litros de leite que todos os dias saem dos milhares de explorações espalhadas por Portugal, a quem pontualmente paga os valores acordados e, em simultâneo, num enorme
frete realizado aos operadores da distribuição a actuar em Portugal.

 

Definitivamente, as organizações do sector têm que saber escolher aliados e adversários e perceber que, não o fazendo, estão a fazer o jogo da distribuição organizada, a qual, neste campo, tem um lema único: ‘dividir-para-reinar’!...

 

Pedro Pimentel - Informação da ANIL - Setembro

 

 

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