Ao longo dos seus mais de 28 anos de atividade, a AGROGESTÃO contou com a colaboração de muitos profissionais que hoje continuam a contribuir para o desenvolvimento do setor agrícola e de outras áreas de atividade, em Portugal e no mundo.
A série Percursos AGROGESTÃO dá a conhecer alguns desses caminhos. O de Nuno Nunes é um dos mais inesperados — e também dos mais globais, cruzando agricultura, desenvolvimento, ação humanitária, gestão de crises e, mais recentemente, dados e inteligência artificial.
Ao longo de mais de duas décadas, o seu percurso passou por projetos de desenvolvimento rural em Timor-Leste, gestão de campos de deslocados, coordenação de operações humanitárias em contextos de crise e funções internacionais ligadas à IOM – UN Migration, organização das Nações Unidas dedicada às migrações e mobilidade humana. Pelo caminho, trabalhou em países como Haiti, Síria, Líbia, Paquistão, República Democrática do Congo ou Suíça, num percurso profissional improvável para alguém que começou por instalar software de gestão agrícola em explorações portuguesas.

A “volta ao mundo” começa em Timor
Pouco tempo depois de iniciar a sua vida profissional, surge uma oportunidade que mudaria completamente o percurso de Nuno Nunes. A possibilidade de trabalhar no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Rural em Timor-Leste trouxe consigo aquilo que descreve como uma combinação de aventura, desafio e curiosidade.
“Por um lado, a aventura, o desafio, ser jovem… por outro, a ideia de ver como era a agricultura e a vida rural num contexto de desenvolvimento.”
O que começou como uma experiência de três meses acabou por se transformar numa estadia de quase cinco anos — e no início de um percurso internacional que viria a ganhar uma dimensão muito mais ampla.
Foi colocado em Natarbora, uma zona remota da costa sul de Timor-Leste, numa fase particularmente sensível do processo de reconstrução do país após a independência.
“Fui para Natarbora, uma zona muito remota, onde a viagem desde Díli podia demorar sete ou oito horas em estradas muito degradadas.”
O projeto passava pelo estabelecimento e gestão de viveiros agroflorestais e pela recuperação de culturas tropicais como café, cacau e baunilha, contribuindo para reflorestação de áreas destruídas durante os anos de conflito.
Mas a experiência rapidamente ultrapassou a dimensão técnica.
“Não havia cobertura de telefone nem comunicações regulares. A coordenação fazia-se quando conseguia voltar a Díli.”
Viver de forma diferente
Em Timor, a experiência foi muito mais do que profissional. Foi também uma mudança profunda de perspetiva, um contacto direto com realidades muito diferentes das que conhecia.
“Vivi para aí um ano e meio sem eletricidade.”
Uma condição que, sendo excecional para quem sai de Portugal, é o quotidiano de milhões de pessoas em várias partes do mundo. O dia-a-dia organizava-se de outra forma, com outros ritmos e outras referências.
“À noite, quando não chovia, a loja da aldeia virava a televisão para o adro. Vinha toda a gente sentar-se em bancos corridos para ver uma novela indonésia.”
O que poderia ser visto como limitação tornou-se, para ele, uma experiência profundamente marcante.
“Ter-me divertido e adaptado a ter vivido assim foi especial. Marcou-me. Muito.”
Esta vivência acabou por influenciar profundamente a forma como olha hoje para o desenvolvimento — não apenas como conceito técnico, mas como realidade vivida por pessoas concretas.
Liderar no meio da incerteza
Depois de passar por outro local remoto — o enclave de Oecussi — surge em 2006 um novo desafio. Desta vez, num contexto de deslocação forçada de populações.
Em Timor-Leste, Nuno passa a gerir campos com milhares de pessoas, numa realidade exigente, imprevisível e muitas vezes emocionalmente intensa.
“Um tinha 10.000 pessoas — dois terços da população de Tomar — outro 6.000, outro 2.000.”
O trabalho implicava organizar, mediar, negociar e, muitas vezes, lidar com a ausência de soluções imediatas.
“Organizar, mediar, convencer, ter paciência… e arranjar soluções para quando faltava tudo.”
Foi também neste contexto que começou a cruzar, de forma mais clara, o trabalho no terreno com o uso de dados.
“Comecei a usar os conhecimentos de programação que tinha ganho na AGROGESTÃO — para registo da população e definição de prioridades em cada campo.”
Essa ligação entre realidade operacional e estruturação de informação viria a marcar o resto do seu percurso.

Mas o percurso tinha começado antes…
Antes de Timor, dos campos de deslocados e das operações internacionais, houve uma primeira experiência profissional em Portugal — e um ambiente de trabalho que acabaria por deixar marcas duradouras.
Nuno recorda a sua passagem pela AGROGESTÃO, entre 2001 e 2003, como uma verdadeira iniciação — não apenas ao mundo do trabalho, mas a uma forma de pensar e de atuar.
Mais do que uma função concreta, encontrou um ambiente muito particular, difícil de descrever em termos convencionais.
“A AGROGESTÃO era um micro-big-sur — com dois rapazes super informados, a fazer coisas fora do comum, com um negócio bem pensado, clientes super interessantes… e uma equipa de pessoas que eram tanto profissionais como simpáticas e boas.”
Entrou como estagiário comercial, mas rapidamente percebeu que o papel ia muito além de qualquer definição formal. Entre campanhas de divulgação feitas quase de forma artesanal — cartas enviadas pelo correio, listas de potenciais clientes e etiquetas desalinhadas — e deslocações frequentes a explorações agrícolas por todo o país, o trabalho era exigente e pouco linear.
“Era vendedor, fazia panfletos, mexia em websites, aprendia mapas, dava apoio técnico por telefone… e era o portador das valiosas chaves USB e dos CD-ROMs de instalação.”
Cada contacto podia dar origem a uma nova visita, muitas vezes em locais remotos, onde apresentava ou instalava o software da AGROGESTÃO. Mas era no trabalho que vinha a seguir que encontrava maior interesse: a parametrização dos sistemas e as conversas com os empresários.
“A parte mais interessante era depois a parametrização — ou as conversas à volta dos centros de custo.”
Sem o saber na altura, estava também a desenvolver competências que viriam a revelar-se fundamentais no seu percurso.
“Aprendi bases de programação… hoje vejo isso como mediação tecnológica entre cliente e programadores. O futuro veio a dizer como isto foi importante.”
Um ambiente que deixa marca
Para além do trabalho, ficou a memória das pessoas — e da forma como eram tratadas.
Alguns episódios ajudam a perceber melhor esse contexto. Num momento particularmente difícil, quando ficou sem o carro que utilizava para trabalhar, a reação não foi a que esperava.
“Foi um drama, até pensei que pudesse ser despedido. Em vez disso, deram-me um Focus novinho — com via verde!”
Noutra ocasião, surgiu uma oportunidade que hoje recorda com humor.
“Perguntaram-me se estava interessado em fazer um MBA, que vocês pagavam. Disse que não… nozes para quem não tem dentes.
Recordo-me de vocês como mesmo boas pessoas.”
Mais do que benefícios ou condições, eram sinais de um ambiente exigente, mas próximo — onde existia confiança e uma vontade genuína de criar oportunidades.

IOM – UN Migration: uma dimensão global
Grande parte do percurso profissional de Nuno desenvolveu-se no contexto da IOM – International Organization for Migration, organização ligada às Nações Unidas e hoje considerada uma das principais referências mundiais na área das migrações e mobilidade humana.
Criada em 1951, na sequência dos grandes movimentos populacionais do pós-guerra, a IOM trabalha atualmente em mais de 100 países e reúne mais de 170 Estados-membros. A organização apoia populações deslocadas, responde a crises humanitárias, desenvolve programas de migração segura e produz informação essencial para operações humanitárias e políticas públicas.
Ao longo de mais de 15 anos na organização, Nuno desempenhou funções em diferentes geografias e contextos, alternando entre operações no terreno e coordenação internacional.
Entre outras responsabilidades, trabalhou em contextos como Haiti, Síria, Líbia, Paquistão, Costa do Marfim ou República Democrática do Congo, alternando entre funções operacionais no terreno e coordenação global em Genebra e Londres.
Na Costa do Marfim, tal como em Timor-Leste trabalhou diretamente na gestão de campos e coordenação de respostas de emergência. No Paquistão assumiu funções de coordenação operacional e, em Genebra, passou a liderar equipas globais ligadas à monitorização de deslocações populacionais e sistemas de dados humanitários, trabalhando com governos, agências das Nações Unidas e parceiros tecnológicos.
“Passei muitos anos entre terreno, coordenação internacional e sistemas de informação. A certo ponto apercebi-me de que estava a gerir uma operação global feita de dados, de sistemas, e muitas pessoas.”
Trabalhou em muitos países, mas alguns momentos foram particularmente marcantes como no Haiti.
Haiti e o nascimento de um sistema global
No Haiti, após o terramoto de 2010, esteve envolvido na gestão de operações ligadas a campos de deslocados, abrigo de emergência e sistemas de informação humanitária.
“Foi um grande susto… horrível, na verdade. Mas também transformador.”
Num contexto extremo, com centenas de milhares de pessoas deslocadas, tornou-se necessário criar sistemas de informação capazes de apoiar decisões humanitárias em tempo real.
Foi nesse contexto que nasce o DTM – Displacement Tracking Matrix.
“Registámos mais de 1 milhão de pessoas… e usámos esse registo para garantir acesso a comida e apoiar ações de retorno.”
A informação recolhida passou rapidamente a ser central para operações humanitárias, coordenação internacional e definição de prioridades.
“Tornámos listas de campos — mais de 1.000 — e necessidades setoriais em fontes de informação essenciais para operações e estratégia.”
Ao longo dos anos seguintes, o DTM evoluiu para um dos principais sistemas globais de monitorização de deslocações humanas, tornando-se, mais recentemente, na principal ferramenta de gestão de informação sobre deslocações no âmbito do sistema humanitário das Nações Unidas.
O sistema acabou por ser utilizado em dezenas de países, em contextos tão distintos como guerras, desastres naturais, movimentos migratórios ou crises climáticas, apoiando operações, financiamento humanitário, planeamento e políticas públicas.
“Começou como uma necessidade operacional num contexto extremo… e acabou por se transformar numa infraestrutura global de dados sobre mobilidade humana.”
Ao longo desse processo, o DTM tornou-se também um espaço de inovação tecnológica em contextos humanitários particularmente exigentes.
“Testámos recolha móvel de dados quando quase ninguém o fazia — desde BlackBerrys até aos smartphones atuais — muitas vezes em operações sem comunicações, eletricidade ou internet estável.”
A equipa integrou especialistas de áreas muito distintas, incluindo física, estatística, GIS e ciência de dados, desenvolvendo modelos de análise e sistemas globais de informação numa altura em que estes temas ainda eram pouco comuns no setor humanitário. Ao mesmo tempo, foi criada uma arquitetura global de servidores, bases de dados e sistemas GIS que permitiu consolidar informação operacional e monitorizar movimentos populacionais à escala internacional. Ao mesmo tempo, a equipa ajudou – e até liderou — diversas iniciativas relacionadas com ética em ciência de dados e inteligência artificial em contextos humanitários.
Dados, mobilidade e inteligência artificial
A fase mais recente do percurso de Nuno tem sido marcada por uma tentativa de voltar a cruzar tecnologia, mobilidade, gestão e desenvolvimento local.
Iniciou um doutoramento na Universidade de Lisboa sobre agência humana, sistemas de dados e inteligência artificial, antes ainda da emergência do ChatGPT e da aceleração recente da inteligência artificial.
Em paralelo, voltou ao Instituto Superior de Agronomia para estudar modelos emergentes para estimativa de populações rurais.
O mestrado focou-se em modelos emergentes para estimativa de populações rurais para compreender dinâmicas populacionais em territórios de baixa densidade. O trabalho explorou abordagens capazes de estimar presença humana, mobilidade sazonal e transformação territorial, cruzando dados de mobilidade, deteção remota, ciência de dados e inteligência artificial, para ultrapassar limitações de métodos demográficos tradicionais em contextos rurais.
“Vinha já da experiência do DTM a ideia de que muitas populações e movimentos em territórios rurais acabam por ficar parcialmente invisíveis nos sistemas clássicos de informação — mesmo em países com estatísticas avançadas. E isso limita bastante a forma como se planeia e entende o mundo fora das cidades.”
O doutoramento procura explorar a relação entre a forma como pessoas mantêm — ou perdem — capacidade de decisão, sistemas de dados e inteligência artificial, sobretudo em contextos de mobilidade, deslocação e tomada de decisão.
“Interessava-me perceber até que ponto modelos computacionais começavam não apenas a descrever comportamentos humanos, mas também a moldar decisões e realidades sociais.”
Depois de concluir a componente curricular do doutoramento e entregar a tese de agronomia, regressou temporariamente à IOM, em Washington DC, para colaborar em projetos ligados a modelos e simulações aplicados a contingências civis, emergency shelter e planeamento humanitário.
Mais recentemente, tem colaborado no desenvolvimento da Flyrobotics, empresa ligada à robótica e tecnologia aplicada, retomando simultaneamente projetos ligados à gestão agrícola, empresarial e tecnológica.
Um percurso em evolução
O percurso de Nuno Nunes continua hoje em evolução, cruzando terreno, tecnologia, investigação e ação humanitária.
“Depois de tantos anos a viajar e a trabalhar em crises, comecei também a interessar-me mais pela ideia de construir coisas neste sítio concreto.”
Mas olhando para trás, há um fio condutor claro: a capacidade de adaptação, a curiosidade intelectual e a ligação constante entre conhecimento técnico e realidade prática.
Um percurso que começou num pequeno ecossistema ligado à gestão agrícola… e que acabou por ganhar dimensão global.
