Percursos AGROGESTÃO – Paulo Martins Ferreira: entre pessoas, tecnologia e ética

Ao longo dos seus mais de 28 anos de atividade, a AGROGESTÃO contou com a colaboração de muitos profissionais que hoje continuam a contribuir para o desenvolvimento do setor agrícola e de outras áreas de atividade, em Portugal e no mundo.

A série “Percursos AGROGESTÃO” dá a conhecer alguns desses caminhos. O de Paulo Martins Ferreira é um desses percursos improváveis, mas profundamente coerentes: começou entre consultoria agrícola, formação e programação de software… e acabaria anos mais tarde no centro dos temas de ética e integridade de uma das maiores empresas portuguesas.

Mas olhando para trás, talvez exista um fio condutor mais importante do que os cargos ou as funções: a forma como olha para as pessoas.

 

Uma primeira aventura profissional

Paulo entrou na AGROGESTÃO ainda antes de terminar o curso de Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia. Tinha sido aluno do Professor Francisco Avillez, que orientou a sua tese de licenciatura em Economia Agrária, e começou precisamente por trabalhar sobre bases de dados de clientes da empresa que serviriam de suporte ao trabalho académico.

Era um jovem inexperiente, numa empresa também ela jovem, cheia de ideias novas e a fazer coisas pouco comuns para a época.

“Era uma empresa cheia de gente jovem e a fazer coisas inovadoras. Essa conjugação de fatores cativou-me e fez com que me agarrasse à oportunidade.”

O estágio rapidamente se transformou num contrato efetivo — e numa experiência profissional que ainda hoje recorda com enorme intensidade.

“Confesso que hoje em dia há noites em que sonho que ainda lá trabalho.”

 

Quilómetros, agricultores e um Ford Focus

Depois do estágio, passou a exercer funções de consultor, acompanhando empresas agrícolas por todo o país no âmbito dos projetos desenvolvidos pela AGROGESTÃO.

Era um trabalho exigente, feito de muitos quilómetros, contacto direto com empresários agrícolas e uma enorme proximidade ao terreno.

“Ia percorrendo o país dando formação e prestando consultoria a pequenas e médias empresas… e na verdade adorava esse trabalho.”

A memória desses anos mistura inevitavelmente trabalho, descoberta e liberdade.

“Era jovem, solteiro, deram-me um Ford Focus, estava em contacto com pessoas muito interessantes e cheias de histórias de vida para contar… estava com um trabalho de sonho.”

Mas aquilo que mais o marcou talvez tenha sido o contacto humano.

Acompanhou agricultores com níveis de escolaridade muito distintos, muitos deles sem qualquer experiência com computadores, mas quase sempre com enorme vontade de aprender.

“Nunca desistiam, procurando compreender e aplicar o que lhes procurávamos transmitir.”

E foi aí que começou a perceber algo que o acompanharia até hoje.

“A Universidade não me deu a realidade no terreno — e a forma como a teoria nem sempre é ajustada à prática.”

 

O “protótipo de programador”

A certa altura, a AGROGESTÃO precisava de reforçar a equipa de programação.

Na época, essa equipa era constituída essencialmente por Miguel, Júlia e Carlos. Paulo, movido por curiosidade, alguma ousadia e uma boa dose de inconsciência típica da idade, ofereceu-se para ajudar.

Havia apenas um pequeno detalhe.

“Nunca tinha programado uma linha de código na vida.”

Ainda hoje não sabe exatamente como aconteceu, mas no dia seguinte estava sentado ao lado da Júlia a aprender sobre bases de dados e VBA.

“Ali permaneci algum tempo, sob a mentoria extraordinária do Miguel e da Júlia, até que comecei a ficar mais autónomo e virei um protótipo de programador.”

O episódio ajuda a perceber muito do ambiente que existia na AGROGESTÃO nessa fase: equipas pequenas, muita autonomia, aprendizagem acelerada e espaço para experimentar.

E sem o saber, Paulo estava a desenvolver competências que acabariam por acompanhá-lo durante décadas.

 

Histórias que ficam

As recordações desses anos continuam carregadas de episódios caricatos e profundamente humanos.

Desde sessões de formação em que se jogava Solitaire para aprender a usar o rato antes de passar para software de gestão, até à descoberta de que a drive de CD não era afinal uma base para copos.

Ou ainda o famoso “rato voador”.

“Pedi a um formando para subir o cursor até ao topo do monitor… e vejo a mão a levantar literalmente o rato pelo ar.”

Mas talvez uma das histórias mais memoráveis tenha acontecido numa associação de produtores de queijo da Serra da Estrela.

Depois de trancar o carro com as chaves lá dentro — numa sexta-feira ao final do dia e a centenas de quilómetros de casa — entrou naturalmente em pânico.

A solução surgiu de forma inesperada.

“Um dos formandos disse: ‘Não se preocupe Sr. Engenheiro, tenho um amigo que resolve isso.’”

Meia hora depois apareceu o tal amigo, pediu-lhe apenas para virar costas… e poucos minutos depois a porta estava aberta.

“Ainda hoje não sei o que ele fez.”

Estas histórias ajudam a explicar porque continua a recordar esses anos com tanta proximidade.

“Lembro-me de uma equipa unida, cheia de vontade de entregar, com muitos quilómetros rodados e centenas de pessoas tocadas por esta PME cheia de ideias inovadoras.”

 

Da AGROGESTÃO para a EDP

A passagem para a EDP surgiu de forma relativamente simples. Um amigo partilhou uma vaga ligada à área de servidões administrativas para passagem de linhas elétricas e gestão de terrenos para instalação da infraestrutura.

Movido mais pela curiosidade de perceber como funcionava uma grande empresa multinacional do que por vontade de mudar, decidiu concorrer.

Foi a sua primeira verdadeira entrevista de emprego.

“Até aí, tinha começado como estagiário na AGROGESTÃO e depois fui convidado a continuar.”

A mudança de escala foi inicialmente intimidante.

“Passei de uma PME quase familiar para uma empresa com milhares de pessoas e altamente hierarquizada.”

Mas rapidamente voltou a acontecer algo familiar: identificou uma necessidade operacional e acabou por desenvolver uma aplicação em Access/VBA para responder ao problema.

Mais uma vez, as competências adquiridas na AGROGESTÃO acabavam por reaparecer.

 

Ética, integridade e cultura organizacional

Anos mais tarde, através de um programa de mobilidade interna, candidatou-se a uma função ligada ao Provedor de Ética da EDP.

Uma conversa prevista para meia hora prolongou-se durante quase duas.

No final, foi selecionado.

Desde então, o seu percurso passou a centrar-se nos temas da ética empresarial, cultura organizacional, integridade e sistemas de gestão de denúncias.

Ao longo dos anos, especializou-se em áreas ligadas ao whistleblowing e gestão da ética empresarial, num contexto cada vez mais internacional e tecnológico.

E foi precisamente aí que uma parte menos previsível do seu percurso voltou a ganhar importância.

As competências de programação e desenvolvimento aplicacional que tinha começado a adquirir quase por acaso na AGROGESTÃO reapareceram muitos anos depois no contexto da EDP, quando promoveu o desenvolvimento de uma plataforma global de gestão de denúncias que é utilizada em todo o grupo.

“Consigo falar com propriedade com as equipas de desenvolvimento, tornando o processo muito mais ágil.”

Hoje é responsável pelo Sistema de Gestão de Denúncias do grupo EDP — uma função particularmente exigente numa organização presente em mais de 20 países.

“É um trabalho altamente desafiante, mas ao mesmo tempo gratificante, no sentido em que somos promotores de um clima ético e de integridade que salvaguarda a reputação da empresa.”

O que à primeira vista parecia um desvio improvável — de consultor agrícola para programador, e mais tarde para ética empresarial — acabou afinal por revelar uma coerência inesperada: a ligação constante entre pessoas, sistemas e organizações.

 

Muito para além da engenharia
Mas o percurso do Paulo Ferreira não se explica apenas pelo lado técnico ou profissional.

Fora do contexto empresarial, mantém há muitos anos uma ligação profunda à música, em particular à guitarra portuguesa, instrumento que começou a estudar ainda jovem no Conservatório Nacional, em paralelo com o curso de Engenharia Agronómica.

Hoje, essa dimensão ultrapassa claramente o simples hobby, tendo já atuado em diversos contextos dentro e fora de Portugal.

“ A música ajuda-me muito na forma como abordo temas complexos e pessoas. Obriga-nos a ouvir, interpretar e encontrar equilíbrio. E traz também uma componente criativa importante”, refere.

Mais recentemente, encontrou também na corrida de longa distância — em particular no ultra trail de montanha — outra escola de resistência e superação.

Entre várias provas realizadas, destaca o Madeira Island Ultra Trail (MIUT), uma travessia de 116 km pela ilha da Madeira, com cerca de 7.500 metros de desnível positivo acumulado.

“Foi talvez aí que percebi verdadeiramente o significado da palavra resiliência. Aprendemos a lidar com imprevistos, desgaste, desconforto e dúvida. E isso acaba inevitavelmente por ter impacto na forma como gerimos pressão e responsabilidade no contexto profissional.”

 

Pessoas no centro

Nos últimos anos, temas como ética organizacional, whistleblowing, compliance e inteligência artificial passaram a ocupar um espaço crescente no seu trabalho.

Mas mesmo aí, Paulo mantém uma visão profundamente humana.

“Acredito que independentemente da área de atividade, as pessoas devem estar no centro do que fazemos.”

A inteligência artificial, por exemplo, surge para si como uma ferramenta poderosa — mas sempre com supervisão humana.

“Tem sido um excelente assistente, mantendo sempre o humano em controlo.”

Talvez por isso o percurso faça hoje tanto sentido quando visto em retrospetiva.

Os agricultores que conheceu no terreno, as formações improvisadas, as viagens pelo país, a programação aprendida quase por acaso e a atenção constante às pessoas acabaram todos por contribuir para a forma como olha hoje para as organizações.

E talvez seja precisamente essa a maior coerência do seu percurso:
a convicção de que tecnologia, ética e gestão só fazem verdadeiramente sentido quando continuam ligadas às pessoas.